Prem Karuna: “Yoga é a própria vida. É o próprio propósito. Ele te dá todas as ferramentas para você se autoconhecer”

Co-criadora do método Awaken Love Yoga junto ao mestre espiritual Sri Prem Baba e equipe, a instrutora de yoga e terapeuta mineira relata com clareza e brilho no olhar a sensação de profundo encaixe que a experiência de colocar seus dons e talentos à serviço de uma causa maior tem lhe proporcionado

Entrevista: Lucila Lobo e Mariana Albanese
Texto: Mariana Albanese
Fotos: acervo pessoal

Esta é a história da bióloga Luiza, que renasceu como a yogini Prem Karuna. Mas é, essencialmente, uma história de liberdade. Do encontro com a meditação na adolescência à dissolução de dogmas e crenças familiares. A liberdade que traz a beleza de descobrir quem realmente somos e que levou a então bióloga mineira, hoje co-criadora do método Awaken Love Yoga, a assumir em 2011 seu real propósito de vida: ser instrutora de yoga.
Foi necessário um trajeto de 16 anos de descobertas pessoais, viagens de estudo à Índia, materialização de um negócio próprio e autoinvestigação para que, em um momento especial de 2016, Karuna pudesse, “bem humildemente”, sugerir a seu mestre espiritual e fundador do movimento mundial Awaken Love, Sri Prem Baba, parceria para a criação de um método de ensino de hatha yoga. Ou seja: unir a prática física às demais linhas de yoga já presentes no trabalho do mestre (karma yoga, yoga do serviço; bhakti yoga, o da devoção; e jnana yoga, do conhecimento), tendo os ásanas como caminho para o reencontro que a milenar filosofia indiana propõe.
Como ela faz questão de esclarecer, embora nessa trajetória tenha contado com a fluidez que a certeza de estar no caminho de seu propósito trouxe, nada caiu do céu. “Pelo menos, para mim não caiu. Você precisa fazer. Aí você faz, você sente se é isso, se não é, pode se permitir errar, ter esse lugar de acolhimento com você”, enfatiza, para completar: “é o passe para a sua cura”.


Eureka! A descoberta do yoga e o encontro com o propósito
Foi com uma imensa alegria que a adolescente Luiza Domingues fez sua primeira viagem sozinha, aos 17 anos, para o sul da Bahia. Solta para aproveitar a trégua dada pelos pais que até então a “seguravam”, ela fez o caminho contrário a muitos adolescentes que enfim podem gozar do livre-arbítrio: nada de bebidas e baladas intermináveis. Tomada por um instinto natural, ela entrou em estado meditativo. “Eu acordava, via o sol nascer e entrava em meditação. Ninguém nunca tinha me ensinado e comecei a ter alguns insights”.
A experiência na praia de Caraíva despertou na menina o interesse pela filosofia do yoga e os mistérios do oriente. Leu “‘A Índia Secreta”, de Paul Brunton, e mais adiante, os Sutras de Patanjali, textos clássicos sobre o yoga tradicional. Uma descoberta precoce que levou, também, ao vegetarianismo na mesma idade. Desde cedo inclinada ao universo espiritual, seguiu o yoga pela meditação: “E pra mim já estava suficiente”.

A prática física do yoga, ou seja, por meio dos ásanas que trazem presença a partir do trabalho corporal, só chegou por volta dos 23 anos. Afinal, a jovem que gostava de atividades mais intensas, a exemplo da capoeira, tinha a imagem de uma suavidade que não a instigava muito: “Eu pensava: ‘o yoga não é para mim. Eu gosto do yoga na filosofia de vida’”. Mas aceitou a sugestão de amigas que diziam que a prática era “sua cara”. Três aulas depois, em um janu sirsasana (postura da cabeça no joelho), lembra-se de ter olhado para a professora e entendido: “Eu nasci pra isso! Eu vou seguir minha carreira com isso!”. Iniciou, assim, uma jornada de cursos.
 

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Mas entre a descoberta do propósito e a total entrega a ele, o caminho não foi tão simples. Mesmo encantada e decidida a se aprofundar, tinha os dogmas familiares ainda muito presentes: “Eu fiz os cursos mas não tinha coragem de dar aula”. Sentiu a necessidade de seguir uma carreira mais tradicional, embora conectada com outra paixão, esta pela natureza: tornou-se bióloga. Especificamente, uma ornitóloga, observando a liberdade que os pássaros têm de serem eles desde o nascimento.
Apesar de agradecida por passar seus dias em um ambiente tão privilegiado, havia uma angústia, um desencaixe, como ela define: “Queria trabalhar com conservação, era meio idealista, queria fazer projetos de monitoramento, e fui percebendo que isso não seria possível para a realidade brasileira”.
Foram dez anos como bióloga, até que, trabalhando como consultora ambiental em uma empresa, sentiu-se realmente infeliz: “Decidi que eu precisava sair desse emprego, não sabia direito o que ia fazer, mas tinha uma vontade enorme de ir pra Índia”.

Mestrado, Prem Baba, Índia: uma flor que se abriu
Uma dica da intuição e alguns contatos depois, a bióloga Luiza encontrou uma maneira suave de fazer a transição: ao propor de entrar em um mestrado, garantiria um retorno ao mercado caso precisasse. Aceita para a prova na Universidade de Brasília, com apenas um mês para estudar, recebeu, também, um belo “presente de grego”: um impedimento de sua chefe fez com que ela fosse promovida a gerente de um projeto. Iniciou, assim, uma maratona em que os anos de estudo do yoga foram essenciais para a disciplina que precisou ter: “Acordava, meditava uma hora e meia, depois ia para a aula de yoga das 7h às 9h - na época, fazia ashtanga. Estudava, saía para almoçar, voltava, ficava até oito da noite nesse projeto, tomava um banho, estudava, dormia às 23h”. O final foi feliz: “Entreguei o projeto, passei com bolsa no mestrado em Ecologia, pedi demissão e fui pra Índia pela primeira vez, entre 2010 e 2011”.
Antes, porém, o acaso abriu as portas para um encontro especial: soube, pela amiga que a hospedou, que na mesma época da prova o mestre espiritual brasileiro Sri Prem Baba faria seu primeiro satsang em Brasília. Adiou a passagem de volta e viu Baba também pela pela primeira vez. Um encontro que, até então ela não poderia imaginar, seria o convite para uma nova perspectiva profissional e espiritual que se avizinhava.

A primeira viagem à Índia foi intensa: “Nessa época eu era iniciada no Kriya Yoga, e fui com o pessoal para o Maha Kumbha Mela, que acontece há 144 anos. Esse grupo conseguiu uma tenda no meio do festival e fiquei lá”. Em um intervalo do festival, que reúne milhões de hindus, foi com o grupo para Rishikesh, exatamente para o ashram do guru que ela havia conhecido em Brasília. A experiência foi um incentivo para a viagem continuar: “Decidi ficar sozinha na Índia e voltei para ver o Baba. No caminho, no rickshaw [transporte tradicional indiano], eu entrei em meditação e senti meu coração ficar muito aquecido. Quando eu sentei no Satsang Hall, eu entrei em uma meditação muito profunda. Eu não senti meu corpo, eu não senti que estava lá. A sensação que eu tive é que estava dentro do receptáculo de uma flor, e quando saí não tinha ninguém no Satsang Hall. O Prem Baba já tinha saído e no meu coração ficou uma flor de lótus”.
Hoje, a lembrança se torna clara: “Eu senti que naquele momento foi nosso encontro. Mas eu não entendi, ou não quis admitir isso na hora”.

De volta a Brasília, estava decidida: “Eu sabia que não queria mais trabalhar com biologia, mas precisava fazer esta transição. Terminei o mestrado e comecei a dar aula de yoga”.

A mudança de carreira foi, também, a de paradigmas familiares: recebeu críticas ao romper com a estrutura de educação formal que lhe havia sido oferecida. Mas a certeza de que seu caminho era o yoga foi maior do que as críticas familiares, e ela atribui a essa visão clara a calma que teve para finalizar aquela etapa da vida.

Luiza passa a ser Karuna, e nasce o Sachcha Prem

A experiência indiana se repetiu novamente no ano seguinte, e a agora assumidíssima professora de yoga começou a estudar Yogaterapia em Chennai. Foi quando iniciou-se com Prem Baba: naquele instante, Luiza recebeu o novo nome espiritual: Prem Karuna.
Mas 2012 reservava mais: “Teve de novo o Khumba Mela, eu estava num satsang e comecei a receber que precisava voltar para Belo Horizonte, que é onde eu nasci”. Algo curioso, somado a um segundo acontecimento: “Quando eu cheguei, tive um encontro com o Baba, em que ele falou: ‘Olha, estou indo para Belo Horizonte ano que vem’. Eu achei estranho, porque eu morava em Brasília, e falei: ‘Tá bom, que bom... No que eu puder ajudar…’”.

De volta à cidade natal, entendeu que tinha a missão de se reestabelecer e criar a sangha local (comunidade de seguidores), e em 2013 construiu seu próprio centro de yoga, o Sachcha Prem, batizado em homenagem à linhagem do mestre.

A construção do espaço, voltado para dar vazão não só ao lado yogini de Karuna, mas também aos seus atendimentos como terapeuta ayurvédica e somática, acabou saindo mais cara do que o previsto, e seguiram-se dois anos de desafio intenso para sanar a dívida. Precisou se desfazer de um terreno que tinha, por um valor mais baixo do que valia, mas desde então viu a coisa fluir: “Eu poderia lamentar e entrar na vítima, mas assumi ter essa coragem de continuar. Foi uma força... A gente tem que se afirmar nessa intuição, nessa voz do coração”.
Seguiu com a formação: “Estudei por seis anos na Índia [em 2018 ela já soma 16 viagens ao país]. Eu ficava indo e voltando. E o Prem Baba meio que sabia que eu estava fazendo esse curso. Ele me acompanhou de alguma forma”.

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Um passo além

Dívidas quitadas, espaço físico e profissional consolidados, era hora de um novo desafio: por volta de 2016 os alunos do Sachcha Prem começaram a levantar a possibilidade de uma formação em yoga. Karuna sentia que era o momento de dar um novo passo em sua carreira, e junto com essa movimentação, veio a ideia de sugerir ao mestre que incorporasse uma formação em yoga à família de ferramentas do movimento Awaken Love, que já contava com um método corporal, o ODGI (O Despertar do Guerreiro Interno).
A sincronia foi perfeita: “O Baba trouxe que já tinha visualizado e gostaria de ter o hatha yoga na linhagem”.

Um ano e meio separou a conversa inicial e a primeira formação de professores do método batizado de Awaken Love Yoga, realizada entre novembro e dezembro de 2017, no ashram de Alto Paraíso de Goiás.
Ela define este processo como “viver o yoga na prática”: “Tivemos momentos muito difíceis, de desencontro entre a equipe, porque a gente estava alinhando qual seria a metodologia. Quais as aulas que a gente traria. De onde a gente buscaria essa fonte do hatha yoga”.
Foi um período de trabalho intenso, em que Karuna conta ter recebido muita energia: “Espiritual, energia do Prem Baba, do meu próprio propósito... Da minha alma dizendo ‘agora é isso’. Foi um conjunto”.

Força para levar adiante um projeto que já não era mais só dela, mas do coletivo, envolvendo outros professores: “Entregar o trabalho para o mestre exige essa compreensão de que existe algo maior. Que você é esse algo maior. E que quando você está à serviço do propósito, não importa se é meu, se é do Prem Baba: e que bom que seja do Baba, porque ele já está podendo ter esse alcance. Ele tem um propósito todo esclarecido, e nós somos a mesma família”. E ressalta uma característica bem comum ao alinhamento com o propósito: “Um pouquinho que você faz a história já abre”.

“Agora que o processo já está acontecendo, eu vejo que foi o momento perfeito”, analisa, com olhar de quem passou pela fase mais complexa, o partir da estaca zero: “Quando o curso começou eu me senti alimentada. Acho que essa conexão com o propósito faz a energia começar a fluir. A gente só se alimenta”.

O yoga como ferramenta de propósito

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A definição que Karuna traz é simples e complexa ao mesmo tempo: “Acho que o yoga pode ser uma excelente ferramenta para a pessoa encontrar seu propósito. Yoga é a própria vida. É o próprio propósito. Ele te dá todas as ferramentas para você se autoconhecer, e por meio do autoconhecimento você se conectar com o seu coração, se afinar com seu dharma”.
Ela conta que o yoga clássico traz ferramentas para vivenciar essa experiência de forma prática, o transformando em um estilo de vida: “Ele tem passos que te ajudam a capacitar a sua mente para que tenha a visão de quem é você. Traz métodos, técnicas, formas de você desenvolver isso”. São práticas simples de auto-observação, de conexão consigo mesmo, que podem desfazer muitos mitos à respeito do próprio yoga e introduzir estas técnicas na vida, para que você possa trazer a presença para o dia a dia.

 

Ao se auto-observar, ela viu sua missão ir mudando ao longo do tempo: “Agora eu sinto que meu propósito continua sendo dar aula, mas conseguir abarcar mais pessoas. E é uma sensação de muito encaixe”.

E, ressalta, para vivenciarmos essa sensação de plenitude dentro do que viemos fazer aqui, é preciso driblar as armadilhas que nós mesmos nos impomos: “A dúvida da mente é uma das coisas que te tiram da presença. Que não combinam com esse encontro com o seu ser. Tem que ter coragem e manter a conexão com o coração”. E dá o próprio exemplo: “Quando eu senti que meu caminho era o yoga e a minha família não me apoiou, o que me sustentou foi esse sentimento interno de que era pra mim. Não tem muito o que falar. Era uma conexão com o meu coração. Era uma certeza interna. E eu paguei pra ver”.

O conselho é: não temer as mudanças. Nem esperar passivamente que algo aconteça
“As pessoas ficam angustiadas de fazer essa transição. Têm medo, às vezes têm até depressão. Mas eu sinto que é realmente um processo que precisa ser atravessado. E se a gente não encara isso, a tristeza é muito pior, muito maior”, aconselha. Com a experiência de quem já vivenciou algumas destas fases, ela incentiva: “A gente não pode esquecer que tem uma luz no fim do túnel. E seguir. Daqui a pouco os caminhos vão se abrindo, as coisas vão clareando”.
Mas contar com milagres não faz parte do pacote: “Às vezes a pessoas esperam que a coisa caia do céu e ela não vai cair. Ela não cai de maduro. Pelo menos para mim não caiu. Você precisa fazer. Aí você faz, você sente se é isso, se não é, se permite errar, ter esse lugar de acolhimento com você. É um desenvolvimento de confiança, mesmo”.
E vai mais fundo: “É um renascimento. Você está saindo da barriga da sua mãe e você tem que lutar para sair dali. É o passe para a sua cura. Porque o tempo todo a gente foi ensinado a não ser a gente mesmo. A ter crenças dos pais, da nossa sociedade, então em um determinado momento você veste tudo isso e segue a normose. Quando você entra nesse processo, é sua oportunidade de realmente se conectar com o que é só seu. É você se permitir ser você. É sua sobrevivência. É vital”.

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