O propósito de trazer a mensagem do feminino utilizando a música como ferramenta

Por Lucila Lobo
Fotos Sitah, Fabio Lisi e Laura Serradourada

Foi com os pés na água e a cabeça mergulhada no coração, num dia de profunda tristeza, que Nicole Salmi se conectou pela primeira vez com a possibilidade de trabalhar com música.

Não que a música fosse novidade em sua vida - desde os 11 anos ela tocava violão - mas havia dentro dela uma rigidez que não a permitia conceber que algo simples, que ela fazia todo dia, poderia um dia se tornar sua profissão.

Essa foi a primeira das muitas vezes em que a coragem de encarar as emoções e assumir a própria tristeza, dor e infelicidade lhe deu preciosas pistas sobre o caminho que a conduziria ao seu propósito: "eu nasci para trazer a mensagem do feminino, porque ao revelar o feminino dentro de mim posso inspirar outras pessoas e escolhi como ferramentas do meu propósito o canto e a música".

A conexão com o feminino e com as águas das emoções permitiram Nicole a fazer uma alquimia muito bonita entre seus aprendizados, seu processo de autoconhecimento, sua história e sua carreira na música. Sua jornada representa bem a possibilidade de conciliar diversos papéis, de mãe, mulher, filha, educadora, cantora em um modelo de trabalho que faça sentido.

Como toda boa história do propósito, seu caminho não foi fácil. Em uma tarde de sol, com pequeno Kaluanã nos braços, a cantora nos recebeu em seu apartamento na cidade de São Paulo, onde conversamos sobre carreira, liderança feminina, propósito, maternidade e espiritualidade.

Música e Propósito

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Nicole conta que nasceu "rígida, cheia de travas" e que a música e o contato com a natureza, em especial com as águas, foram elementos que a amoleceram e a ensinaram a levar a vida de forma mais leve e fluída. As letras de suas músicas são mensagens que brotam do seu próprio processo de aprendizado: "eu escrevo primeiro para mim, vejo que a minha cura pode ser também a cura para as outras pessoas".

Esse insight veio pela primeira vez durante um retiro de autoconhecimento conduzido por Sri Prem Baba. Ao ouvir as histórias dos outros participantes ela se deu conta da profundidade do sofrimento que cada um carregava dentro de si e isso a comoveu. Nicole então começou a pensar em músicas que as pessoas pudessem ouvir no dia a dia para acalmar o coração e sentir acolhimento.

"Eu sentia muita aridez nas histórias e fiquei com vontade de fazer gravar um CD com essa intenção. De conceber um projeto que falasse das águas para nutrir, acalmar e trazer sentido para tanto sofrimento".

Uma das marcas do seu processo criativo, envolve dar lugar para os insights que brotam de momentos de angústia e aprendeu por meio da auto-observação que quando o peito aperta é um sinal de que ela precisa sentar e compor:

"Comecei a validar os momentos de angústia que na verdade vinham me dizer algo. Eles são muitas vezes um termômetro que indica que um novo trabalho está para florescer. E eu tinha uma idealização, um ego espiritual de que não era bem assim não. Que o propósito atuava só na paz, na alegria...
Tudo bem não estar bem, mas no começo foi difícil me permitir esse estado, porque fui criada para estar sempre bem."
Dr. Rugu ê Foto arquivo pessoal

As águas das emoções e do autoconhecimento fizeram Nicole navegar até sua infância e à construção do seu feminino. O resultado dessa jornada são canções  que falam do resgate das forças da natureza, da liberdade e da espontaneidade, e que podem ser encontradas em seu disco Auto Mar.

 

O trabalho é um convite a um mergulho interno, resultado de um trabalho colaborativo, em que Nicole contou com idéias e insights de amigos, que foram integrados em diversas etapas da co-criação, desde o nome do disco até a criação dos arranjos e produção dos shows.

O início: Assumindo desejos e vontades

O projeto começou a tomar corpo quando um dia conversando com sua professora e terapeuta, Prem Mukti Mayi, Nicole confessou o desejo de viver apenas de sua música. Naquela época o maior empecilho era a falta de tempo "estava envolvida em muitos outros projetos, dando aulas, organizando workshops e que não tinha tempo, foi aí que ela me deu a ideia de fazer coaching".  

Nicole seguiu seu conselho e a primeira etapa do processo conduzido pelo coach Carlos Estonlho foi apoiá-la a assumir suas vontades e enfrentar suas idealizações espirituais: "Eu pensava, não posso cantar jazz, só posso cantar mantras, Eu entrei em uma coisa idealizada e no fundo eu estava cheia de desejos e tava me reprimindo."

Na época Nicole cantava muito com músicos amadores e pessoas que não viviam de música. Percebeu que estava sentindo falta de se testar mais e explorar seu potencial musical. Junto com seu coach começou a pontuar cada uma de suas vontades: ter uma banda profissional com bateria, guitarra e baixo, fazer um show com toda sua força e potência musical. Sentia vontade de manter suas inspirações espirituais, mas em uma linguagem que fizesse sentido para todos os públicos e não apenas para quem já estava inserido no universo do yoga e dos mantras. Nicole queria um projeto que a permitisse transitar livremente pelo mundo da música.

"Eu precisei da ajuda de um coach para assumir isso para mim. Para finalmente poder admitir 'eu quero desse jeito, com essas pessoas, não quero isso, não quero aquilo'. Coloquei bem claro o que eu não queria, porque já estava bem cansada de ficar agradando, sabe?"

Ao ser indagada sobre quem ela queria agradar, Nicole revelou um medo muito humano, o de deixar de pertencer.

"Eu achava que quando eu assumisse esse meu lado, eu seria excluída do meu sangha espiritual. Na minha idealização eu achava que estava fazendo uma coisa que não era para esse público, foi quando veio uma voz 'Nossa você tá preocupada com o grupo, sendo que você pode ter o mundo?', 'Por que você tá preocupada com uma coisa tão pequena se você está fazendo algo que além de incluir esse grupo, você pode expandir para mais pessoas?"

Nicole conta que o coaching também a ajudou a desfazer-se da ilusão e da fantasia de que "em algum momento um produtor iria aparecer e me lançar, de que alguém iria fazer por mim". Graças ao processo, ela pode perceber com mais clareza seus desejos, assumi-los, mapear o precisava ser feito e entrar em ação.

“Percebi que esse movimento era individual, mas que eu não precisava fazer tudo sozinha. Que tudo bem pedir ajuda e poder contar com um profissional, com os músicos.”

O poder de materialização das redes

Superados os medos, Nicole entrou em ação. Em uma semana, conta, um mundo de possibilidades se abriu e ela passou a buscar músicos profissionais. Começou pelo seu vizinho, o baterista Gui Vitale, com quem toca até hoje. Depois vieram o baixista Marcos Lopes e, por último, o guitarrista Ricardo Carneiro. O processo também contou a participação especial do músico violonista, Luiz Bueno, a quem Nicole chama carinhosamente de "chaveiro": "Toda vez que eu travava e não sabia como abrir essa porta, eu ia até ele e ele me dava as chaves."

Dr Ruguê no Dharma Talks #13.  Foto Fabio Lisi

A primeira delas foi abrir-se a toda possibilidade de realizar uma apresentação e com isso divulgar seu trabalho para diferentes públicos e explorar o poder das redes sociais.

Logo se deu conta de que, se quisesse bancar esse sonho, com todos os desejos e vontades, ela precisaria aprender a viabilizar financeiramente o projeto. Viver essa experiência demonstrou que enfrentar o mercado da música não seria fácil: "É caro. Os custos são altos e os cachês, normalmente, não cobrem as despesas. Ainda estou aprendendo sobre a fórmula para essa conta fechar, para seguir um caminho autônomo, sem empresário ou patrocinador."

Essa necessidade, demandou o uso de mais uma chave, a do financiamento coletivo, por meio da plataforma de crowdfunding Catarse: "foi muito revelador, porque se eu tivesse um patrocinador não teria sido um terço da diversão que foi. Foi aí que eu descobri o poder da rede."

Adepta da astrologia, conta que enquanto seu sol em virgem a ajudava a planejar e a organizar o financiamento coletivo de levantamento de fundos para produção do CD, seu ascendente em aquário a libertou para assumir seu lado criança e se despir de todas as limitações autoimpostas.

No seu primeiro show, permitiu-se expressar livremente e ser criança outra vez: "Pulei, dancei até o chão. E aí eu realizei que vim ao mundo para experimentar o que gosto, o que não gosto, de testar as possibilidades."

Dr. Rugue no Dharma Talks #13 Foto Fabio Lisi

Nicole conta que assumir esse lado criança, a fez perceber o peso do esforço de sustentar aquilo que não se é de verdade e que a escolha de levar esse seu desejo de fazer música a sério, veio de um lugar de humildade. "Às vezes a gente fica buscando as coisas lá longe e não vê o que está mais perto, por considerar óbvio, simples demais".

Uma outra limitação autoimposta na infância foi igualmente superada durante o processo de produção de Auto Mar:

"meu cabelo sempre foi uma expressão dessa natureza selvagem e que muitas vezes me envergonhou quando eu era pequena. Hoje faço do meu cabelo um símbolo de expressão dessa força".

A força da co-criação e o modelo de liderança feminino

Desbravar esse caminho permitiu à Nicole descobrir os valores norteadores do seu projeto. A cantora formou o grupo com músicos com mais de dez anos de estrada à sua frente. No início, enfrentou algumas fricções: "percebi que quando eu ficava querendo ser líder, tipo chefe, para mostrar que eu era super eficiente e que eles tinham que fazer uma lista de coisas, o projeto não andava.

Chegar "com tudo pronto", no fundo, estava impedindo Nicole de se conectar com a experiência e sabedoria de seus companheiros de banda. No dia em que ela pode se abrir e revelar a insegurança de não saber por onde começar a mágica começou a acontecer:

"Quando me permiti ser vulnerável, acendi a empatia dos músicos, e abri espaço para que todos fizessem parte. Nos envolvemos muito, criamos uma relação de parceria muito forte entre nós quatro, de um amor enorme."

Nesse o momento o objetivo de lançar o CD deixou de ser o "projeto da Nicole" para se tornar o propósito de trabalho do grupo. Mostrar-se vulnerável e abrir mão do controle criou um campo para que Nicole reconhecesse que fazer desse jeito, em uma atmosfera de união, trazia um novo vigor. Ela passou a ver o valor da força do grupo, a se valorizar mais e a sentir a força que o trabalho estava ganhando.

Seus parceiros passaram a ser vistos como “guerreiros protetores”, que lhes tramitem força e a ajudam a sustentar o projeto - dentro e fora dos palcos. Nicole conta que ter esses três homens especiais por perto trouxe a confiança necessária para que ela pudesse assumir seu feminino, florear, dançar e colocar todo o seu potencial vocal em movimento: "Hoje quando eu toco sozinha, voz e violão eu sinto falta da força deles."

Foto: Fabio Lisi

Foto: Fabio Lisi

Adepta no unschooling (processo de desescolarização da educação), Nicole testou os preceitos dessa filosofia na prática:

"Ver de perto esse processo me influenciou bastante a fazer o CD desse jeito. A abrir espaço para essa nova proposta de cada um trazer o seus dons e talentos e permitir que cada um seja e dê o seu melhor quando estamos juntos. Foi o que fiz quando trouxe aqueles que acreditava serem os melhores em cada instrumento. Foi lindo! E tudo foi muito rápido."

O desenvolvimento da carreira como preparativo para a maternidade

Enquanto Nicole descrevia a aventura de lançar um projeto musical alinhado com sua essência,  pude perceber uma maturidade, a efervescência do seu feminino e que uma nova mulher foi sendo gestada durante o processo.

Uma das idealizações da cantora envolvia morar longe do agito de São Paulo, mas a rotina de shows e a necessidade de fomentar redes de divulgação do projeto fizeram com que Nicole precisasse trocar o verde de Cotia (município próximo da cidade de São Paulo), para um apartamento na capital. Essa necessidade profissional, provocou Nicole a se organizar.

Mal sabia ela, que tudo aquilo estava acontecendo justamente para que dar mais estrutura para receber seu primeiro filho, sem precisar se afastar tanto da sua rotina de trabalho.

Durante o período que antecedeu a vinda de seu filho, Kaluanã, além das mudanças geográficas, outras transformações comportamentais começaram a acontecer também, embora Nicole só tenha se dado conta disso tempos depois.

Enquanto se desenvolvia profissionalmente e turbinava sua carreira, ela pode flexibilizar sua rigidez, abrir mão do perfeccionismo, exercitar a empatia e a vulnerabilidade para se abrir a formas colaborativas de trabalho. Fez parte desse desenvolvimento o "projeto brincar" em que Nicole se permitiu a levar as coisas menos à sério "não no sentido de ser irresponsável",  explica, "mas de não ter tanta rigidez".

A experiência de conceber a vida de um novo projeto

Justamente no momento em que Nicole estava planejando sua turnê internacional, descobriu que estava grávida. "Foi um tapa na cara", conta.

Passado o susto, ela foi percebendo que já estava cantando para o feminino, sobre o feminino, chamando o feminino. Neste cenário, a maternidade seria o mestrado para ela experienciar tudo aquilo que falava, mas a partir de uma nova perspectiva.

Apesar de tudo ter sido muito inesperado em um dado momento, ela percebeu a espiritualidade permeando todo o processo.

"Era como se eu estivesse me preparando  e preparando o meu campo para recebê-lo. Eu já estar em São Paulo, perto da minha mãe, bem perto das amigas que fizeram uma super rede de apoio. Foi algo muito guiado."

Comecei a ver que várias músicas que eu já cantava,  pareciam estara falando dele e de sua chegada. Comecei a ver o projeto totalmente associado à sua vinda."

Assim como construir o CD, o trabalho de dar à luz ao pequeno Kalu foi igualmente um processo intenso e doloroso, que a convidou a um mergulho.  Nicole conta que a dor do parto a impediu de pensar e conduziu a um estado de presença.

“Foi muito incrível porque eu vi o meu corpo fazendo o que tinha que ser feito e tudo o que precisava fazer era não atrapalhar.

Eu sinto que com o meu CD foi a mesma coisa, eu sentia, era encaminhada para falar com cada pessoa, que me ligava a uma outra… eu entrei num fluxo que era só eu não atrapalhar e deixar fluir.”

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Enquanto Kalu nascia, uma parte de Nicole se despedia. Ela conta que uma parte de sua personalidade morreu e que o parto aniquilou a vítima que a habitava.

“Eu fui vendo como o parto era uma morte de tudo que eu já tinha sido e que eu estava atravessando um portal.

Desacreditada do que eu tinha acabado de vivenciar e o que veio na minha cabeça foi ‘eu nunca mais vou poder mentir para mim mesma que não sou capaz ou de que eu não tenho força’”

O processo de parto trouxe a mesma revelação que sentiu enquanto gravava o CD, a de que a idealização de Deus e da Espiritualidade de alguma forma a distanciavam do que precisava ser feito.

“Foi um momento em que de novo eu fui convidada a tirar a responsabilidade do outro e trazer para mim. Eu que tinha que fazer até para ter dimensão da minha capacidade. porque eu me imaginava muito mais frágil e vítima do que eu sou.
Se eu não fizesse por mim mesma o meu projeto eu não ia ter o que eu queria, e o parto foi a mesma coisa. Eu podia ter a melhor doula, a melhor médica, o melhor marido, mas era eu quem tinha que parir o meu filho. Ninguém podia fazer aquela força por mim.”
Foto: Fabio Lisi

Foto: Fabio Lisi

Nicole segue em seu processo de aprendizado, a vinda de Kalu permitiu à mãe recém-nascida a descoberta de novas formas de fazer as mesmas coisas, para integrá-lo à sua vida e carreira. Na sua visão, ele veio somar e não separá-la do seu trabalho.

Esse conjunto de experiências, conta ela, permitiu o nascimento de um novo olhar para as mulheres e a potencialização da  força de sua comunhão com o feminino.

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