“A GENTE SÓ SENTE QUE REALIZOU ALGUMA COISA NESTA VIDA, A PARTIR DOS EMBATES DAS RELAÇÕES”

Por Lucila Lobo

 

Conheça as escolhas que conduziram Dr. Ruguê, uma das principais autoridades ocidentais em Ayurveda, ao seu Dharma e entenda como o ayurveda e a psicologia do yoga podem ser valiosas ferramentas de promoção de saúde e bem estar para aqueles que buscam trilhar um caminho com propósito

Dr. Ruguê Foto Arquivo Pessoal

Dr. Ruguê
Foto Arquivo Pessoal

São Paulo. Dezenove horas e quinze minutos. Chuva. Trânsito. A sensação de se estar atrasado para um compromisso. Junte todos os esses ingredientes e o que temos? As condições ideais para uma daquelas conversas nas quais não se percebe o tempo passar.

Em dezembro, a Dharma Academy recebeu, na penúltima edição do Dharma Talks de 2017, um dos professores que por muitos anos acompanhou o Grupo de Estudos de Expansão da Consciência e Meditação: o Dr. José Ruguê Ribeiro Júnior cuja biografia e atividades são extensas no campo das ciências e da espiritualidade. Durante o trajeto até o lugar do evento, conversamos sobre sua infância, o encontro com seu mestre, Sri Vájera Yogui Dasa, a escolha pelo curso de medicina e sobre a importância do autoconhecimento para a promoção da saúde sob o ponto de vista do ayurveda e do yoga.

Para quem não sabe, por 06 anos até 2015, o que hoje nós chamamos de Dharma Talks era uma iniciativa de amigos e amigos de amigos que se reuniam em suas casas, para cantar, meditar e estudar sobre temas ligados ao autoconhecimento, espiritualidade e evolução humana (clique aqui para saber mais sobre a origem dos Dharma Talks). Desde aquele período, uma vez por mês, Dr. Ruguê vinha de Uberlândia para conduzir nossos estudos sobre a filosofia do yoga.

Essa personalidade que reúne conhecimentos médicos, vivências dos sábios, e o aporte teórico dos cientistas, com seu prazer contagiante em contar histórias e piadas sobre os doshas[1], inspirou muitos dos que passaram pelo grupo a se observarem e a se conhecerem melhor. Mas poucos conhecem a história por trás das histórias que o Dr. Ruguê narra.

Ao contrário do que acontece com a maior parte das pessoas, sua busca por um caminho que desse mais sentido à sua existência antecedeu suas primeiras escolhas profissionais. Antes de ser médico, diretor e chefe da UTI de um dos principais hospitais do triângulo mineiro, Dr. Ruguê se descobriu yogue[2].

Questionado sobre a motivação que o conduziu ao yoga, conta uma história intrigante de quando  tinha onze anos. Seu pai, durante um almoço, perguntou-lhe, o porquê da cara de preocupação. Autodidata, desde os oito, já lia sobre astrofísica, mecânica celeste e matemática e tinha os cientistas como seus mestres, respondeu que estava interessado na busca de uma teoria científica que explicasse o teletransporte da matéria. Qual não foi sua surpresa quando seu pai lhe contou que no centro espírita que frequentava já se fazia isso.

Como era possível, pessoas simples, sem qualquer formação acadêmica, realizar algo que os maiores cientistas do mundo estavam longe de alcançar? Essa e outras perguntas permearam seus pensamentos e a possibilidade de acompanhar materializações e desmaterializações de objetos foi o suficiente para despertar a curiosidade do rapazinho que estava tão aberto para todo e qualquer aprendizado.

Conta que, naquela época, em Uberlândia, a mil quilômetros do mar, os frequentadores do centro espírita haviam materializado um cavalo marinho. Achou isso a coisa mais impressionante do mundo e pensou: se essas pessoas rezando, orando, conseguem fazer coisas tão fenomenais, deve existir outra ciência que é essa que eu ainda não conheço.

“Naquela época, não sabia explicar, mas hoje eu sei que é do silêncio e do interior de cada indivíduo que desperta esse poder de realizar coisas que a ciência não está nem perto de explicar. Comecei então a investigar e a estudar assuntos relacionados à espiritualidade e esoterismo, até chegar à cultura védica[3].

A visão daquele fenômeno foi o suficiente para que o pequeno Ruguê retomasse sua busca, desta vez pelos caminhos da espiritualidade e da meditação. O mesmo ímpeto usado para a instrução científica foi combustível para novas experiências.

Dr. Rugu ê Foto arquivo pessoal

Dr. Ruguê
Foto arquivo pessoal

Meditar me deu a percepção da existência de uma coisa interna muito poderosa. Uma experiência fenomenológica que me trouxe a sensação de unidade e de algo eterno dentro de mim. Nesse período, uma pessoa me contou que existia um lugar onde se praticava a meditação e o cultivo do silêncio, sem rituais.

 Era a Shudda Dharma, a escola que eu sigo até hoje. Lá, pela primeira vez na vida, aos 14 anos, eu ouvi um mantra e instruções para meditar na luz do coração.”

 

Diz ele que como já havia percebido aquela sensação de luz interna, o lugar passou a fazer sentido para ele. Já na primeira visita permaneceu no espaço por mais de três horas, meditando. Voltou para casa de madrugada com a sensação de que finalmente havia encontrado o seu caminho. Na mesma semana devolveu todos os materiais, livros e estudos de outras ordens e começou a concentrar seus estudos na filosofia védica.

O yoga é uma filosofia ampla e composta de muitas vertentes, Dr. Ruguê relatou que seu encontro com ela, não foi por meio do hatha[4] mas pela prática espiritual. O mestre da Shudda Dharma, Sri Vájera Yogui Dasa, residia no Chile e a comunicação com seu mais novo discípulo foi através de cartas escritas à mão, durante um ano. O primeiro encontro aconteceu, em 1974, quando seu guru[5] veio para o Brasil. Ao falar do mestre, seus olhos transmitem a emoção. Pergunto-lhe como tão novo,  e de certa forma, ainda inexperiente, já poderia saber que era ele.

Dr. Ruguê menciona que não foi um, mas vários sinais: o primeiro foi sensação de que frequentar a escola Shudda Dharma fazia sentido, como se uma voz interna lhe dissesse que aquele era o seu caminho. O segundo foi a facilidade com que compreendia a filosofia védica e todos os seus termos em sânscrito e a sensação de que poderia reorganizar a complexidade daquelas informações de um modo que elas também fizesse sentido para a comunidade ocidental. Ele me explicou que a forma como os assuntos são concatenados na tradição hindu, desafia nossa forma de pensar porque exige um tipo de atenção diferente daquelas que fomos ensinados a ter. De alguma forma, o jovem Ruguê já se sentia familiarizado com aqueles estudos, de modo que estudar com o mestre foi algo natural. O terceiro, sua história de vida o impressionava. Seu mestre fora ainda mais precoce que ele: por iniciativa própria, filho de pais extremamente católicos, no Chile, no final do século XIX, ele dedicou sua vida inteira aos estudos e disseminação da cultura védica. O último sinal, surgiu no momento em que Sri Vájera Yogui Dasa veio ao Brasil:

“E, quando nos conhecemos, tive essa confirmação. Nosso primeiro encontro foi muito impressionante, estava muito emocionado por conhecer o mestre que veio do Chile. 
Fiquei tão emocionado em estar frente a frente com meu mestre, que até esqueci meus óculos [risos]. Eu que já era míope naquela época e o vi todo embaçado. Ele era bem grande e vestia uma camisa branca muito bonita. Quando ele me viu, abriu os braços e me abraçou e falei: ‘Pronto! Tô em casa!’. Aquele sentimento de se estar completamente seguro de tudo o que eu tinha e do que estava fazendo, vi projetado para o futuro todo o trabalho que eu teria que fazer. Toda a transformação e a dedicação integral que eu precisava ter.”

Dr Ruguê no Dharma Talks #13.  Foto Fabio Lisi

Dr Ruguê no Dharma Talks #13. 
Foto Fabio Lisi

Desde o início, Sri Vájera Yogui Dasa, adiantara ao Dr. Ruguê que após sua partida dessa existência na Terra, ele seria uma das pessoas que daria continuidade ao trabalho por ele iniciado. Na época, o jovem ainda tinha dificuldades para entender como, com aquela idade, pouca experiência e ainda sem “uma alma tão evoluída”, ele poderia assumir a grandiosidade daquela missão.

Durante uma tarde em que trabalhavam juntos, mestre escrevendo e discípulo datilografando, Sri Vájera Yogui Dasa deu-lhe um exemplo que não só o marcou para sempre como o fez orgulhar-se de ser comparado a um prego enferrujado:

“Suponha que essa mesa tivesse quebrado, e eu tenha que consertar essa tábua da mesa para conseguir trabalhar. Do que vai me valer uma caneta de ouro, se a tábua tá quebrada? Nada. Do que vai me valer a pedra de diamante desse anel? Nada. 
E se eu tiver um martelo e um prego enferrujados? Não vai ser muito melhor do que ter uma caneta de ouro e um anel de diamantes?  Pois então, você é o meu prego enferrujado.”             

Essa história ensinou-lhe a perceber que as pessoas estão no lugar que a natureza considera próprio para elas fazerem aquilo que deve ser feito. Neste caso, a pessoa ideal para trabalho não precisa ser a mais pura, elevada, e dotada de virtudes, mas a pessoa que apesar de suas imperfeições se dispõe a fazer um determinado trabalho e que enfrenta qualquer obstáculo e dificuldade. Nos últimos quarenta anos, Dr. Ruguê vem zelando pela missão de difundir os estudos aprendidos com seu mestre. Por meio das práticas, ele vai construindo seu próprio caminho e apoiando seus alunos e pacientes a construírem seus caminhos também.

No Brasil, já existem mais de 2000 médicos ayurvedas formados por ele em Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, Natal, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e também em Alto Paraíso, no interior de Goiás. Há cerca de 8 anos ele vem trabalhando com a gravação de vídeos para aulas on-line que ensinam pessoas em Portugal, Argentina e Espanha

O método de ensino a distância não é novidade para ele, já que sua relação mestre-discípulo foi construída ao longo de inúmeras trocas de cartas e viagens internacionais. Algumas vezes, Dr. Ruguê ia ao Chile, outras seu mestre vinha para o Brasil. Boa parte de seus treinamentos intensivos foram feitos no Chile e de forma bastante próxima e pessoal. Tanto que foi possível contar com toda a sua sabedoria na época em que fora chamado a tomar as grandes decisões pós período escolar. Além de toda orientação filosófica e espiritual, Dr. Ruguê teve, ao seu lado, o mestre e amigo apoiando-o no momento de escolha dos caminhos profissionais.

Quando conta sobre as razões que o levaram a escolher o curso de medicina, fica evidente a influência exercida pelo autoconhecimento e pela busca por desvendar os mistérios da existência. Dr. Ruguê decidiu por essa profissão ao considerar características pessoais que precisavam ser desenvolvidas e não seus talentos e aptidões naturais. Quem já teve a oportunidade de vê-lo palestrando, pode se surpreender, pois, quando relata histórias de consultório ou explica algumas de suas teorias sobre saúde e bem estar, nota-se nele um entusiasmo genuíno. Mas a verdade é que a faculdade de medicina não fora uma escolha óbvia. A primeira vez que visitou o hospital da faculdade de medicina, não gostou do lugar e teve uma péssima impressão. Fato que faria muitos desistirem e interpretarem como um sinal de mau augúrio, no entanto não afetou o futuro médico, confiou na intuição que dizia que seu lugar era ali. 

“Como eu gostava muito de física, eu já estava programado para fazer faculdade de física e especializar meus estudos em astrofísica. Mas aí e olhei pra mim mesmo e pensei, "o que eu tenho de talento? Tenho talento para física, matemática, pensamento abstrato e coisas desse tipo, mas não tenho talento em quê?” Qual a minha maior dificuldade? ” Com certeza, relacionamento humano. Eu pensei - a medicina vai me dar aquilo de que preciso. A não ser que eu fizesse radiologia, patologia, ramos da medicina que não me atraíam em nada, sendo clínico geral não teria como me esquivar do contato com as pessoas.”

Pode parecer às pessoas que essa escolha não tenha sido difícil, já que Dr. Ruguê tinha um guru próximo com quem podia se consultar, entretanto não foi bem assim. O jovem brasileiro bem que tentou levar seu mestre na conversa para conseguir uma resposta que o liberasse da angústia de decidir. Mas a experiência protegeu o mestre do jeitinho mineiro do discípulo e seu papel foi conduzir o raciocínio do jovem para organizar o seu pensar.

 Seja por causa das conversas com seu mestre, seja por conta da prática do silêncio interno e da meditação, Dr. Ruguê percebeu que, apesar de apreciar a solitude dos estudos, mergulhar de cabeça no caminho do conhecimento e da pesquisa o levaria ao isolamento e que ainda correria um sério risco de se perder no orgulho e na vaidade. Orgulho da inteligência e do conhecimento acumulado e vaidade pelas habilidades e conquistas realizadas. Privar-se da interação social o impediria mais cedo ou mais de tarde de verdadeiramente se expor e de superar o desafio de se relacionar com as pessoas com a mesma facilidade com que se relacionava com as estrelas, com o universo, com a complexidade da cultura védica e com as fórmulas de física.

“Quando você se expõe, não tem jeito. Uma hora as qualidades negativas aparecem e você precisa lidar com elas. Eu vim para me desenvolver integralmente. Aí percebi que para me exercitar precisava de uma proximidade obrigatória das pessoas para me exercitar [risos].

 A gente só sente que realizou alguma coisa nessa vida, a partir dos embates das relações.”

 

Enquanto imaginava os prováveis embates - afinal, estamos falando de um estudante que tinha uma forma diferente de pensar, dando seus primeiros passos em uma carreira tradicional em uma universidade pública, no interior de Minas Gerais, durante o período militar - Dr. Ruguê surpreende, mais uma vez, ao afirmar que nunca vivenciou nenhum conflito ao conciliar a prática da medicina tradicional com estudos sobre espiritualidade.

Seus treinamentos e estudos o conduziram a uma maturidade de fazer aquilo que era necessário a despeito de suas crenças, gostos e preferências pessoais, que sempre ficaram em um plano secundário. No entanto, ele preservou a visão de que tudo o que aprendera, graças ao yoga, poderia um dia ajudá-lo no atendimento às pessoas.

Dr. Ruguê formou-se como clínico geral e especializou-se em tratamento intensivo. Por quinze anos, foi diretor e chefe da unidade de terapia intensiva do maior hospital de Uberlândia. Apesar de não usar práticas médicas específicas, no seu agir e na sua postura, ele praticava a filosofia yogue ao lidar com as pessoas e suas questões, pois acredita que a maior parte dos problemas das pessoas vem da dificuldade de se relacionar com o mundo. São problemas de relacionamento, questões emocionais, padrões mentais negativos.

Com o tempo, o trabalho exclusivo em unidade de tratamento intensivo e a exposição excessiva a altas tecnologias passou a angustiá-lo. O desejo de fazer clínica e atender as pessoas começou a dar sinais, no entanto, faltava ainda um conhecimento que aproximasse a medicina tradicional ao conhecimento do yoga construído ao longo dos anos. Mais uma vez foi dentro da cultura védica, que o médico encontrou  o Ayurveda:  medicina tradicional baseada no conhecimento dos Vedas -  livros que constituem uma compilação de hinos, ritos e preces considerados por muitos pesquisadores a primeira escritura sagrada da história da humanidade - e em princípios do Yoga. Após a descoberta, Dr. Ruguê foi primeiro para os Estados Unidos e depois para Índia, estudou por alguns anos até se sentir seguro para tornar o Ayurveda sua prática médica e desde então atua nessa área.

Um dos maiores medos das pessoas, quando pensam em dar um rumo diferente à sua carreira, é o de deixar para trás todo o investimento de tempo e de dinheiro em conhecimentos e experiências. Não é o caso do Dr. Ruguê, que ainda aplica muitas das práticas da medicina ocidental em seus atendimentos, especialmente para exames que complementam um diagnóstico feito em consultório após um extenso questionário de anamnese e um exame físico detalhado. Entretanto, ele destaca que não solicita seus exames de forma indiscriminada como, na sua visão, a maior parte dos médicos costuma fazer em substituição a uma consulta clínica mais cuidadosa. Ele não concorda com essa dinâmica na qual o paciente vai à uma consulta e o médico nem olha para ele, fica olhando para o computador e pede uma infinidade de exames. Para ele, esse abuso na solicitação de exames que exigem alta tecnologia não só encarece, mas também quebra o sistema de saúde e impossibilita que muitas pessoas tenham acesso à saúde.

Na verdade, o papel dele, diz, é fazer bem à pessoa que está sendo atendida. Não se considera ortodoxo, no sentido de impor a medicina ayurvédica, pois se assim fosse, não trataria a pessoa.

 “Por exemplo, a medicina ayurveda preceitua que a alimentação vegetariana é a mais adequada, mas se um carnívoro me procurar e disser que ele quer ir à churrascaria três vezes na semana, eu vou ajudá-lo com antídotos, com ervas medicinais, para que essa carne toda não mate ele de câncer. A vida é de cada um e eu respeito suas escolhas. Eu quero ajudar e usar o melhor do meu conhecimento a serviço da saúde.”

 Para Dr. Ruguê, seu papel é proporcionar bem-estar para aqueles que o procuram e destaca a importância de orientar e apoiar os pacientes a administrarem suas escolhas. Talvez a preocupação entre equilibrar sua sabedoria com as necessidades e escolhas de seus pacientes seja o componente que explique a procura por seus atendimentos. Se ao ler essa matéria você sentiu vontade de agendar um horário, saiba que em São Paulo existe bem mais que uma centena de pessoas querendo o mesmo que você.

A facilidade de acesso e intercâmbio de informações proporcionado pelas mídias sociais, tem conscientizado cada vez mais sobre a importância da saúde integral e da chamada medicina integrativa. Ao mesmo tempo que esse novo olhar expande perspectivas de tratamento, é possível que também seja fonte de angústia. Afinal, uma doença ou distúrbio deixam de ser apenas sintomas físicos para se tornarem indícios de problemas mais complexos de fundo emocional e psicológico que foram somatizados ao longo dos anos.

Nesses casos, a expansão da consciência vem acompanhada da ansiedade de não saber por onde começar. Para essas situações, o Professor de Ayurveda do Curso de Práticas Integrativas da UNIFESP dá algumas pistas:

 

Do ponto de vista físico, a pessoa deve olhar para sua capacidade digestiva.
Ao contrário do que diz o provérbio, você não é o que você come.
Você é aquilo que digere. Se não digerir, não é seu.”

 

Dr. Ruguê exemplifica que muita gente fala mal do leite, por causa da questão da intolerância à lactose e entre outros. Mas o leite, diz, pode ser um excelente alimento se as pessoas forem capazes de digeri-lo. Rindo, ele esclarece, que quando diz leite, ele se refere a um leite bom, de verdade, aquele que é extraído de uma vaca feliz e tratada com respeito.

Por um breve momento, a fala entrecortada de risos se contrai e Dr. Ruguê critica a indústria de laticínios que trata as vacas como “máquinas de produzir leite” e chama a atenção para o fato de não se estender o tratamento dado a cachorros, a gatos e aos demais animais domésticos. Na sua visão, existe uma incoerência na forma como tratamos os animais que produzem substâncias que no limite integrarão o nosso próprio corpo.

Comenta que, no ashram - comunidade orientada  por um sábio ou líder religioso com a finalidade de promover estudos e práticas para a evolução espiritual dos seus membros - as vacas são todas batizadas com nome. Os bezerros têm padrinhos. Lá são tratadas como o mesmo carinho que a maioria da população dispensa a um animal doméstico.

“A vaca é um animal doméstico. E ela vai retribuir esse carinho produzindo um bom leite. É um mamífero com sentimentos, tiram os filhos de perto delas assim que eles nascem. Que mãe produzirá um leite de boa qualidade, se a razão natural para a produção dele for arrancada dela?”

 Além do cuidado na seleção e na procedência dos alimentos escolhidos, Dr. Ruguê ressalta a importância de observar a própria fisiologia e não se deixar levar pelo o que a teoria preceitua como bons alimentos. Para o médico, a capacidade digestiva é mais importante que aquilo que é ingerido e até mesmo o arroz integral e a salada, alimentos “absolvidos” com unanimidade, podem ser prejudiciais. Se o indivíduo não digeri-los bem, o resultado pode ser inchaços, gases e dores abdominais.

Para o médico, a alimentação adequada varia de indivíduo para indivíduo. Não existe nada que seja bom o tempo todo para todas as pessoas. Então não adianta ir ao nutricionista e este padronizar uma lista de alimento bom. Nesse sentido, o ayurveda ajuda muito, já que individualiza tudo: a alimentação e o exercício físico mais recomendado para cada um.

Afirma que não há mais nada além disso, o remédio cura o sintoma de uma doença, mas seu uso não produz os três componentes essenciais para manutenção da saúde e do bem estar: alimentação correta, exercício físico e estado mental positivo. O alcance deles é barato, então é possível desenvolver uma medicina universal, ensinando isso para as pessoas. A reocupação com a saúde focada nesses três componentes , pode ser um excelente começo.

A revolução tecnológica além de propiciar o acesso à informação e expandir a consciência do indivíduo com relação a diferentes formas de cuidar da saúde, também foi decisiva para a perda do monopólio da informação dentro de alguns mercados e instituições. Setores antes inatingíveis, por conta da assimetria de informações, viraram alvos de questionamentos.

No âmbito da saúde e do bem estar, essa dinâmica aconteceu principalmente com a indústria farmacêutica e alimentar. O indivíduo que antes era mero consumidor passou a assumir posicionamentos cada vez mais críticos e conscientes, despertando a atenção para a importância da alimentação no processo de prevenção de doenças, afirma Dr. Ruguê.  

Esta abordagem recomenda não só essa consciência alimentar, mas também a observação de tudo o que sai do organismo e a respectiva regularidade como indicador de saúde como as fezes, urina e, no caso das mulheres, a menstruação. Feito isso, o próximo passo para quem pretende incorporar a medicina integrativa ao dia a dia, seria observar o aspecto psicológico.

Sua experiência demonstra que padrões mentais, psicológicos e emocionais são as principais origens de todas as doenças e de muitos desequilíbrios. Assim como na digestão, ele recomenda um olhar para alguns grupos específicos de sentimentos tais como ansiedade, medo, insegurança, irritabilidade, impaciência, melancolia. Aí a prática  do yoga é fundamental, já que ela ajuda as pessoas a identificarem e transformarem padrões mentais negativos.

 Dr. Ruguê destaca que a prática de yoga a que ele se refere inclui os asanas - posturas corporais cuja prática leva ao conforto físico e à compostura mental - os pranayamas- prática que compreende a observação e controle da respiração- o canto de mantras e a meditação, principalmente. A prática frequente desses exercícios ajuda a identificar repetições comportamentais que incluem os hábitos de pensamento, sentimentos recorrentes e atitudes. Especificamente com relação ao ayurveda, ele explica que existem massagens e técnicas como o shirodara[6], que induzem a um relaxamento profundo e aumentam a percepção e a consciência de padrões que precisam ser transformados.

Ao individualizar o tratamento e abordagem terapêutica, valorizar a anamnese e a investigação de todos os aspectos que gravitam em torno da saúde integral, o ayurveda passa a ser um método interessante e mais alinhado com essa tendência: o indivíduo deixa de ser um mero destinatário de receitas e prescrições padronizadas, para poder contar com um tratamento específico. Questionado sobre qual seria o futuro da saúde humana, Dr. Ruguê enfatiza que individualizar é essencial, tanto na prática do yoga, como também na alimentação.

“A medicina ayurveda promove a visão integrativa da saúde humana, na qual o corpo, a mente,
as emoções e a alma devem atuar em perfeita harmonia.
Assim  todos funcionam bem separadamente e em conjunto.”

O tratamento ayurvédico funda-se em dois grandes pilares: autoconhecimento e diagnóstico dos doshas - arquétipos do ayurveda: Vata, Pitta e Kapha. Investigar esses dois aspectos fornece um diagnóstico do estado dos tecidos e da capacidade digestiva, e isso individualiza o tratamento e prática que deverá ser prescrita.

Explica Dr. Ruguê que uma pessoa de natureza vata, por exemplo, apresenta um biótipo mais magrinho, longilíneo e tem um temperamento agitado, rápido. Geralmente, é mais assustada com o mundo, é muito ansiosa, desconfiada e inquieta. Se, por acaso, ao ir para uma aula de yoga, precisa atravessar São Paulo, num dia de trânsito, chegará agitada. Ou seja, o corpo chega, mas a mente não. A mente ainda está presa em alguma preocupação com alguma coisa do caminho.

Para ele, é fundamental que essa pessoa primeiramente sente, pois as articulações dela não estão muito lubrificadas e, em seguida, conduzi-la a uma breve conversa, para trazer a mente para junto do corpo. Depois é preciso aduzi-la àquilo que Dr. Ruguê chama de yoga geriátrico, com movimentos dos punhos, dos tornozelos, chamados de pavana muktásana – movimentos que objetiva restaurar e manter a saúde, além de preparar posturas mais complexas-, para fazer fluir o prana – energia vital universal, absorvida pelo ar -  e lubrificar as articulações.

“Se a pessoa já chega assustada desse jeito e vai fazer, por exemplo, uma aula de ashtanga vinyasa[7], ela vai executar aquela sequência de posturas de forma inconsciente e corre sérios riscos de se lesionar. Como essa prática virou um modismo, não é raro as pessoas irem parar no ortopedista com lesão. Isso afronta completamente um dos princípios mais elementares do yoga, que é o ahimsa - princípio que faz apologia à não violência a todas as formas de vida.”

 
Na contramão da cartilha ocidental que valoriza o work out, ou exercitar-se para fora, e o no pain, no gain (se não houver sofrimento, não há benefícios), o yoga preceitua o work in, ou prática interna, disciplina que afasta os indivíduos dos sofrimentos do ego. Para Dr. Ruguê parece despropositado o fato de pessoas se lesionarem e sofrerem com dores após se exercitarem e adverte que a prática mal conduzida de posturas de força para desenvolver musculatura ou sair bem na foto da rede social pode ser prejudicial à saúde.

Ele cita o exemplo das revistas de yoga e perfis de redes sociais de alguns praticantes e afirma que é difícil encontrarmos hoje em dia algum sem que haja um homem ou uma mulher com a musculatura bem definida com roupas mínimas, numa pedra, na praia, fazendo uma invertida de pernas apoiada no dedo mindinho com o calcanhar na nuca, como se isso fosse a representação do yoga.

“Isso você não vê na Índia. Isso é produto da visão ocidental do yoga como prática física para o desenvolvimento de músculos.
O yoga pode desenvolver a parte física, mas esse não é o seu objetivo. A prática deve ser conduzida com equilíbrio.”

 

Nesse momento, o motorista que nos conduzia interrompe a conversa para avisar que já estávamos chegando. Foi o tempo necessário para algumas risadas com suas famosas anedotas sobre os outros dois doshas.

Dr. Rugue no Dharma Talks #13 Foto Fabio Lisi

Dr. Rugue no Dharma Talks #13
Foto Fabio Lisi

“Quer outro exemplo? O tipo Pitta, que gosta de aparecer, brilhar e luzir, gosta de tirar foto, de se destacar. Para Pitta a sala de prática de yoga não pode ter espelhos, imagina ele fazendo uma postura,  amando-se perdidamente pelo que ele vê no espelho? É perigoso [risos].

Os cafas são aqueles que só querem o relaxamento, são os perfis mais rechonchudinhos, redondinhos que detestam fazer atividade física, gostam apenas do descanso.  Aula boa pra eles é aquela que o professor fica só no savasana[7] e eles nunca sabem o que acontece do joelho pra cima. O instrutor vai conduzindo o relaxamento do pé, do outro, de uma perna, da outra, aí, quando chega no joelho, ele já dormiu [risos]Pratica yoga “há anos, mas não sabe o que acontece depois do joelho.”


Foram quarenta e seis minutos dentro do carro; em qualquer outra condição, teria sido uma eternidade. Naquela terça-feira, a delicadeza do encaminhamento de nossa conversa pelo yogue transformou o tempo em momentos mágicos e pude saborear todo seu saber pautado no cuidado da saúde para aqueles que buscam um lugar de felicidade e plenitude não apenas no próprio corpo, mas também na sociedade e na natureza onde se encontram inseridos.


(Dr. José Ruguê Ribeiro Júnior, médico intensivista, professor de Ayurveda do Curso de Práticas Integrativas da UNIFESP, etnofarmacologista, membro do corpo docente da International Academy of Ayurveda – Pune – Índia.  Professor em diversas instituições e autor de livros sobre o Yoga. Atende em São Paulo no Yoga Flow)


 

[1] Os doshas são arquétipos do ayurveda que descrevem três perfis biológicos individuais existentes em todas pessoas em diferente proporções: Vata, Pitta e Kapha, . Quando eles estão em desequilíbrio, disfunções e doenças podem começar a se manifestar. A medicina ayurvédica reestabelece o equilíbrio original.

[2] Praticante e adepto da filosofia do yoga

[3] Filosofia surgida há mais de cinco mil anos no norte da Índia. A cultura védica caracteriza-se pelas práticas de meditação como o Yoga e mantras. Cultura fundamentada no Hinduísmo e sua prática de vida é a busca pela Verdade Absoluta.

[4] Prática física de Yoga, para desenvolvimento de força, equilíbrio, alongamento e concentração por meio de exercícios de pranayamas (controle respiratório), asanas (posturas), meditação e relaxamento.

[5] Nesta matéria usaremos a palavra guru para designar a figura do guia, mestre e professor.

[6] Shirodara em sânscrito significa "fluxo contínuo na cabeça" é considerado um dos tratamentos mais importantes da medicina ayurvédica.

[7] O Ashtanga Vinyasa Yoga é conhecido por ser o mais exigente no plano físico de todos os métodos de Yoga. Ele envolve a prática de posturas tradicionais do Hatha Yoga numa sequência fluida e sem intervalos.

[1]  Savasana é conhecida como a postura do cadáver.  É uma postura de relaxamento, feita usualmente no final de cada aula, deitado de barriga para cima, pernas soltas e braços ao longo do corpo. A ideia principal é a de que, por breves instantes, o ego deve morrer. É um momento de entrega absoluta. O corpo, bem como a nossa mente, deve estar relaxado durante o tempo em se que permanece na posição.

 

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