O ESTADO DE SER HUMANO..THE STATE OF BEING HUMAN

...."Eu nunca vi o mindfulness como sendo a minha prática". Foi assim que Martin Aylward, instrutor de mindfulness mundialmente reconhecido, com humor e presença de espírito despertou nossa atenção e curiosidade.

Mindfulness é o termo em inglês, usado para descrever tanto uma prática, quanto o estado de consciência onde mente e corpo encontram-se alinhados num mesmo lugar, em uma mesma atividade. É o momento em que a atenção se encontra no momento presente, com abertura, sem julgamentos e reatividade. Em português termos como consciência, atenção plena, presença ou foco podem ser usados para designar esse mesmo estado.

Sua prática remonta desde tradições religiosas milenares, do hinduísmo ao budismo passando pelo judaísmo, cristianismo, tradições islâmicas. Também está associada à atividades de consciência corporal como o yoga, de contemplação e a estudos e pesquisas aplicadas de neurociência e psicologia.

Na cultura ocidental, o termo passou a ser usado pela comunidade científica há cerca de 30 anos quando o caminho de um seus maiores propagadores, o cientista bio-médico Jon Kabat-Zinn, à época estudante do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) cruzou com o do missionário Zen Budista, Philip Kapleau.

Em 1979, Kabat-Zinn encurtou a distância entre oriente e ocidente fundando o Instituto Clínico de Redução de Stress, ligado à Faculdade de Medicina do MIT, e incorporando técnicas da meditação zen-budista ao seu programa. Essa integração entre tradições milenares e ciência foi crucial para espalhar a popularidade da técnica no ocidente.

No Brasil, o tema tem expandido os círculos de práticas de meditação e yoga e chegado até escolas, universidades e o mundo corporativo, por estar associado a formas de aumento de foco, performance e índices de produtividade.

A Dharma Academy acredita que o valor do mindfulness pode ir além e que ele é um precioso instrumento de autoconhecimento e conexão para transformação individual, coletiva e do planeta em que vivemos na direção de uma vida com mais propósito e significado.

Por este motivo, convidamos Martin para compartilhar conosco sua experiência sobre a prática. Recém chegado de uma semana na Chapada dos Veadeiros, ele esteve na Awaken Love House São Paulo, no último dia 09 de agosto (clique aqui para assistir ao vídeo com os melhores momentos deste encontro).

Praticante da meditação há mais de 25 anos, Martin iniciou sua jornada aos 19 anos quando viajou rumo a Índia e experienciou a vida em monastérios, Ashrams e retiros. Desde 1999 facilita e orienta indivíduos que desejam se aprofundar na prática. É co-fundador do Dharma Yatra Pilgrimages e do Mindfulness Training institute, desenvolveu programas on-line onde ensina técnicas meditativas e dá aulas em centros de estudo na Europa e nos Estados Unidos.

Dentre os muitos ensinamentos compartilhados, chamou a atenção seu convite ao desapego e à fixação em técnicas específicas. Para ele, a vida é vasta e misteriosa demais para ser compreendida e experienciada por meio de conceitos rígidos. Martin chama sua prática de dharma, e a resume em duas atitudes: libertar-se de algo e despertar para algo.

Libertar-se de hábitos; impulsos autodestrutivos; concepções limitantes; inquietações, ansiedades e medos; emoções dolorosas; e, principalmente, das divagações da mente.

E despertar para o que é ser humano, investigar o mistério de estar vivo, viver uma vida consciente e com potencial para nos engrandecer para além do drama e da tensão do dia-a-dia.

Nas linhas que se seguem você encontra trechos da entrevista que fizemos após o evento sobre estar presente, ser humano e o caminho do Dharma. ..

"I have never looked at mindfulness as being my practice." This is how Martin Aylward, world-renowned mindfulness instructor, with humor and presence of mind aroused our attention and curiosity.

Mindfulness is the English term, used to describe both a practice and the state of consciousness where mind and body are aligned in one place, in the same activity. It is the moment in which the attention is in the present moment, with openness, without judgments and reactivity. In Portuguese terms such as consciousness, mindfulness, presence or focus can be used to designate this same state.

Its practice ranges from millennial religious traditions, from Hinduism to Buddhism through Judaism, Christianity, and Islamic traditions. It is also associated with body awareness activities such as yoga, contemplation, and applied research and studies of neuroscience and psychology.

In Western culture, the term was used by the scientific community about 30 years ago when the path of one of its greatest propagators, bio-medical scientist Jon Kabat-Zinn, then a student at MIT (Massachusetts Institute of Technology) crossed with the Zen Buddhist missionary, Philip Kapleau.

In 1979, Kabat-Zinn shortened the distance between east and west by founding the Clinical Institute of Stress Reduction, linked to MIT Medical School, and incorporating Zen Buddhist meditation techniques into his program. This integration between traditional millennia and science was crucial to spreading the popularity of the technique in the West.

In Brazil, the theme has expanded in the practice circles of meditation and yoga and reached schools, universities and the corporate world, being associated with ways of increasing focus, performance and productivity indexes. 

The Dharma Academy believes that the value of mindfulness can go further and that it is a precious instrument of self-knowledge and connection for individual, collective and planetary transformation in which we live toward a life with more purpose and meaning.

For this reason, we invite Martin to share his experience with us. Fresh from a week in Chapada dos Veadeiros, he was at Awaken Love House São Paulo on August 9. (Watch the video)

A meditator for over 25 years, Martin began his journey at the age of 19 when he traveled to India and experienced life in monasteries, ashrams and retreats. Since 1999, he facilitates and guides individuals who wish to delve deeper into practice. He is a co-founder of the Dharma Yatra Pilgrimages and the Mindfulness Training institute, he has developed online programs where he teaches meditative techniques and teaches in study centers in Europe and the United States.

Among the many shared teachings, he called attention to his invitation to detachment and fixation on specific techniques. For him, life is too vast and mysterious to be understood and experienced through rigid concepts. Martin calls his practice dharma, and sums it up in two actions: freeing oneself from something and awakening to something. ....

 

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....Dharma Academy:
Você falou em nosso encontro sobre "a importância do despertarmos para o fato de sermos seres humanos".
Para você, o que é ser um ser humano? Qual caminho um indivíduo deve trilhar para ser compreendido como tal?

Martin Aylward:
Para mim existem caminhos do despertar. Acredito que existem muitas formas de a consciência florescer, e que a prática espiritual, o exercício da consciência, é uma delas.

Sempre me interessei em desenvolver-me como ser humano, explorar a consciência humana. Fui percebendo ao longo do caminho que a forma como essa consciência se desenvolve não é algo linear. É algo que se expande em todas as direções.

Eu não queria ser presunçoso a ponto de dizer que sei o que é um ser humano. Porque quanto mais eu estudo e exploro, menos eu sei o que é um ser humano. Quanto mais eu me aprofundo, mais possibilidades, mais janelas e mistérios se abrem e me torno cada vez menos capaz de falar sobre a totalidade da experiência de ser um ser humano.

Eu sei que faz parte do meu trabalho falar sobre isso, mas eu sinto que quando falo sobre isso consigo transmitir uma porcentagem cada vez menor do que é essa fantástica experiência. Isso me lembra uma história da vida do Buda:

O Buda estava em uma floresta com outros monges. Ele pegou um punhado de folhas e perguntou: há mais folhas na minha mão ou na floresta? E, claro, os monges responderam: na floresta.

Sinto que minha experiência é como a do Buda com as folhas na floresta: as folhas na minha mão são os ensinamentos que transmito; é o mínimo que alguém precisa para estar apto a praticar.

Eu conheço essa história há muito tempo, mas existe algo na beleza disso. Nós achamos que o que ouvimos dos ensinamentos ou o que praticamos basta para sermos um ser humano pleno, presente. Mas a orientação é apenas o que nos foi passado. Na verdade, podemos transmitir uns aos outros apenas uma pequena parte. E a forma como cada ser humano vai experienciar esse ensinamento é inimaginável, ilimitado, infinito. Ser humano é se abrir para esse potencial infinito de possibilidades através de seu olhar individual.

Na sua visão, como o mindfulness pode ser um instrumento para facilitar a busca pelo propósito? Como a prática pode ajudar cada indivíduo a desvendar seu caminho no Dharma?

Se você quer explorar um lugar que você não conhece, ajuda ter um mapa. Apenas ler o mapa nunca será o mesmo que explorar o lugar. O mapa lhe trará uma ideia, uma construção intelectual do que seria a experiência. Por outro lado, se você for até o lugar sem ter visto o mapa, você poderá até explorar, mas provavelmente vai se perder e gastar um tempo dando voltas.

Assim, o jeito mais eficiente é explorar o território com o mapa.

Eu acho que é assim quando falamos do mindfulness como um instrumento para explorar o território da vida de um indivíduo. À medida que você se familiariza com o território de sua própria existência, você está menos sujeito a ser enganado pelas suas experiências e suas falhas, crenças, fixações. Essa prática de se familiarizar com a própria mente e suas experiências é uma forma de construir uma relação mais próxima e, portanto, mais amigável, mais leve, mais pacífica, mais gentil, mais amorosa com sua própria experiência.

Pode até parecer bonitinho dizer essas coisas mas, cara, quando você realmente pára para pensar, temos um relacionamento cruel, demandante, julgador, intolerante conosco.

O motivo pelo qual essa intolerância cresce é porque não conhecemos o território que abriga nossas próprias vidas, não nos conscientizamos da importância de nos familiarizarmos com ele.

Como você fez para se familiarizar com seu território? O que aconteceu na sua vida que o motivou, ainda jovem, nessa busca por um mapa para o seu caminho do Dharma?

Foi uma mistura de motivos. O final do período escolar estava se aproximando e eu estava insatisfeito com a infinidade de opções que me apresentavam. Tanto a idéia de estudar como a de começar a trabalhar me pareciam vazias. Para quê?

Mas teve uma outra coisa: a casa da minha família ficava em frente a uma estrada muito movimentada e, quando eu descia do ônibus escolar, tinha que caminhar cerca de 500m na beira da estrada. Não havia calçada. Os carros passavam bem rentes ao meu corpo. Era uma espécie de experiência contemplativa, e foi ela que me levou a este estado de conscientização. Eu me sentia tão vivo e, ao mesmo tempo, os carros estavam ali; se eu me movesse um passo, morreria. Naquela situação, qual a diferença entre estar vivo ou morto? Não era apenas um questionamento mental, era realmente uma contemplação. E então todas as noites eu pensava nisso: qual a diferença entre a vida e a morte.

A consciência não era apenas estar vivo. Eu, Martin, estar vivo nesse corpo, nessa mente. E aí eu comecei a sentir que havia algo além, não era sobre o Martin, mas sobre estar aqui. Eu não sei o que aconteceria se eu pisasse na estrada e morresse. Igualmente, também não sei o que de fato acontece para que eu esteja aqui, vivo. Foi aí que eu comecei a me tornar realmente, não desesperado, mas intensamente interessado em entender quê diabos era isso: estar vivo.

Que diabos é estar consciente? O fato de não ter meios de olhar para a consciência me intrigava. Se a consciência é aquilo que proporciona o olhar, como olhar para o que os seus olhos estão vendo?

Eu não tinha como procurar por estas respostas no ambiente à minha volta, com meus pais. Eu não podia fazer essas perguntas ao padre. Eu não tinha ninguém para conversar sobre essas coisas. Nessa época, eu comecei a ouvir coisas sobre a Índia. A partir de então eu comecei a alimentar a idéia de que todas as respostas estavam ali, na Índia. E, assim, aos 19 anos, com uma passagem só de ida e sem bagagem, eu descobri que o que a minha consciência dizia era verdade: as respostas, de fato, estavam lá. 

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Dharma Academy:

You spoke at our meeting about "the importance of awakening to the fact that we are human beings." For you, what is it to be a human being? Which way should an individual tread to be understood as such?

Martin Aylward:

For me there are ways of awakening. I believe there are many ways that consciousness can flourish, and that spiritual practice, the exercise of consciousness, is one of them. I have always been interested in developing myself as a human being, exploring human consciousness. I have been realizing along the way that the way this consciousness develops is not something linear. It is something that expands in all directions.

I did not want to be presumptuous enough to say I know what a human being is. Because the more I study and explore, the less I know what a human being is. The more I dig into it, the more possibilities, the more windows and mysteries open up, and I become less able to talk about the whole experience of being a human being.

I know it's part of my job to talk about it, but I feel that when I talk about it I can transmit a smaller and smaller percentage of what this fantastic experience is. It reminds me of a story of the Buddha's life:

Buddha was in a forest with other monks. He picked up a handful of leaves and asked: Are there more leaves in my hand or in the forest? And, of course, the monks replied: in the forest.

I feel that my experience is like that of the Buddha with the leaves in the forest: the leaves in my hand are the teachings I convey; is the least that anyone needs to be able to practice.

I've known this story for a long time, but there's something about the beauty of it. We think that what we hear from the teachings or what we do is enough to be a full, present human being. But guidance is only what has been passed on to us. In fact, we can pass on to each other only a small part. And the way each human being will experience this teaching is unimaginable, unlimited, infinite. To be human is to open yourself to this infinite potential of possibilities through your individual gaze.

In your view, how can mindfulness be an instrument to facilitate the search for purpose? How can practice help each individual to unravel his way in dharma?

If you want to explore a place you do not know, it helps to have a map. Just reading the map will never be the same as exploring the place. The map will bring you an idea, an intellectual construction of what experience would be. On the other hand, if you go to the place without having seen the map, you can even explore it, but you will probably get lost and spend some time wandering around.

Thus, the most efficient way is to explore the territory with the map. I think this is so when we speak of mindfulness as an instrument for exploring the territory of an individual's life. As you become familiar with the territory of your own existence, you are less likely to be deceived by your experiences and your faults, beliefs, fixations. This practice of becoming familiar with one's own mind and experiences is a way of building a closer, and therefore friendlier, lighter, more peaceful, more gentle, more loving relationship with one's own experience.

It may seem cute to say such things, but, man, when you really stop to think, we have a cruel, demanding, judgmental, intolerant relationship with us. The reason this intolerance grows is because we do not know the territory that shelters our own lives, we do not become aware of the importance of getting acquainted with it.

How did you become acquainted with your territory? What happened in your life that motivated you, still young, in this quest for a map for your dharma path?

It was a mixture of motives. The end of the school period was approaching and I was dissatisfied with the myriad options that presented me. Both the idea of studying and starting to work seemed empty. For what?

But there was one other thing: my family's house was across a very busy road, and when I got off the school bus, I had to walk about 500m along the side of the road. There was no sidewalk. The cars passed close to my body. It was a kind of contemplative experience, and it was what led me to this state of awareness. I felt so alive and, at the same time, the cars were there; if I moved a step, I would die. In that situation, what is the difference between being alive and dead? It was not just a questioning of the mind, it was really a contemplation. And then every night I thought about it: what is the difference between life and death.

Consciousness was not just being alive. I, Martin, be alive in this body, in this mind. And then I began to feel that there was something beyond, not about Martin, but about being here. I do not know what would happen if I stepped on the road and died. Also, I do not know what actually happens so that I am here, alive. That's when I started to become really, not desperate, but intensely interested in understanding what the hell it was: being alive.

What the hell is being conscious? The fact that I had no way of looking at consciousness intrigued me. If consciousness is what gives the look, how to look at what your eyes are seeing?

I had no way of looking for these answers in the environment around me, with my parents. I could not ask those questions to the priest. I had no one to talk to about these things. At that time, I began to hear things about India. From then on I started to feed the idea that all the answers were there in India. And so, at age 19, with a one-way ticket and no baggage, I discovered that what my conscience said was true: the answers, in fact, were there. ....

 

.... Lucila Lobo, Community Manager da Dharma Academy..Lucila Lobo, Community Manager of Dharma Academy....

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