Fácil não é, mas é possível

Por Lucila Lobo
Fotos: Fabio Lisi e acervo pessoal Fernando Belatto

Feche os olhos. Imagine-se diante de um guerreiro. Quais imagens vêm à sua mente?

Fernando Belatto é um guerreiro que desconstrói a visão estereotipada que habita o imaginário humano: olhar doce, sorriso fácil e sonoras gargalhadas que entrecortam sua fala, convidam a rir de suas histórias junto com ele.

Quem acompanhou os Dharma Talks #5 e #6, sabe do que estamos falando. Fernando esteve conosco duas vezes este ano, primeiro como condutor da atividade corporal, apresentou o método O Despertar do Guerreiro Interno, ou O-DGI e depois como talker, onde compartilhou  (para assistir ao Talk clique aqui) sobre os caminhos que o conduziram ao O-DGI. Nosso talker guerreiro destacou três marcos importantes:

Fernando Belatto conduzindo a prática do O-DGI no Dharma Talks #5. Fotos Fabio Lisi.

Fernando Belatto conduzindo a prática do O-DGI no Dharma Talks #5. Fotos Fabio Lisi.

  • O chamado do coração, aos 23 anos, convidou-o a aventura de explorar possibilidades fora dos tatames, após 10 anos de competições como atleta de Jiu Jitsu e adquirindo muitos títulos e medalhas;
  • Os desafios enfrentados durante a busca por um caminho que fizesse sentido: a agência de publicidade que se desfez, o roubo do carro, o término de um relacionamento, a tentativa de produzir orgânicos em Jarinu, no interior de São Paulo e, principalmente, sobre a dor e o vazio interno de não saber para onde ir;
  • O encontro com seu mestre espiritual, Sri Prem Baba, que o levou ao despertar da consciência amorosa e à inspiração para travar o bom combate com o medo.

Desse encontro com o mestre e consigo mesmo, brotou a confiança para criar uma metodologia inovadora que combina os princípios da arte marcial com movimentos e fundamentos do yoga, especialmente a prática do ahimsa (não-violência), a meditação e o cultivo do silêncio interno.

"Espero que eu possa servir de inspiração para as pessoas que estão em um momento de transição, de busca pelo propósito possam ver que é possível viver do propósito.
Hoje eu vivo 100% do meu propósito. Falo isso com integridade. Essa casa onde nós estamos. Tudo é financiado pelo O-DGI.
É possível!
Que sirva de motivação para quem está nesse medo.
Não estou falando que é fácil, mas que é possível"

Em entrevista exclusiva à Dharma Academy, de um lugar de mestre de artes marciais, empreendedor, discípulo e buscador espiritual, Fernando falou sobre prosperidade, propósito, a importância de honrar as raízes e como a espiritualidade pode assumir contornos práticos em nosso dia-a-dia.

Dharma Academy - Você nos contou no Dharma Talks que o seu chamado veio de um vazio, de uma sucessão de acontecimentos em que nada parecia dar.
Qual conselho você daria para as pessoas que se encontram justamente nesse momento da jornada? Aquilo que chamamos de maré de azar pode ser o prenúncio de um momento de virada?

Fernando Belatto - Eu tenho o espírito guerreiro, então eu estou bem acostumado à batalha. Acho que se a coisa viesse muito suavezinha eu não ia dar muita atenção. Eu gosto de um conflito, na verdade. Mas de um bom conflito, aquele em que o desafio tem algo a nos ensinar.
Existe uma chavinha que as pessoas precisam mudar internamente. Gasta-se muita energia olhando para os desafios com algo ruim. Mas ser ruim ou bom é uma criação mental. Passamos aquilo que temos que passar. É o que é, entende?

Todo desafio está treinando alguma habilidade. Quando um desafio surge para mim eu dou o meu melhor para não reclamar e fico ali com ele. Eu penso no que preciso fazer para resolvê-lo e sinto o que ele quer me ensinar. Todo desafio nos chama a uma ação que nos tirará da inércia, da preguiça e fará tomar atitudes que em um primeiro momento podem parecer chatas ou legais. Mas isso não importa. O que importa é que preciso fazer algo a respeito para vencê-lo.
E tem o ensinamento. Esse ensinamento movimenta uma energia e essa energia me ajuda a evoluir. Eu acredito que o desafio nunca está contra.

Se a pessoa está em um momento de incerteza com medo de ficar sem dinheiro, por exemplo, essa é uma excelente oportunidade  para ela olhar para a avareza. Esse medo de ficar sem dinheiro é real, ele existe. E o desafio está trazendo a possibilidade da pessoa olhar bem objetivamente para esse medo da escassez. Isso é um presente! Significa que esse medo da escassez sempre existiu dentro da pessoa, mas a dificuldade trouxe uma lupa para ela olhar para esse medo de perto.
O desafio pode ser um inimigo ou um mestre. Eu acredito que é um mestre. Uma excelente oportunidade de evoluir.

Fernando Belatto com 16 anos ao lado de Celso Cavalinni, seu primeiro professor.

Fernando Belatto com 16 anos ao lado de Celso Cavalinni, seu primeiro professor.



DA - Essa visão é do Fernando de hoje, ou o Fernando sempre teve essa consciência?
FB – Não [risos]. Eu acredito que foi um treinamento. Ainda estou em treinamento. Sofri muito muito  com minhas perdas em uma determinada época da minha vida, para hoje poder falar desse lugar. Eu sigo evoluindo, acredito que a expansão é eterna. Mas hoje eu lido com o desafio de uma forma diferente. Há 5, 6 anos atrás eu era muito mais reativo aos meus medos.
 

Eu aprendi que querer ganhar dinheiro para fugir do medo da avareza, não leva à prosperidade. Porque a intenção vem de um medo. Tudo o que brota do medo, faz você sentir ainda mais medo. Agora, quando relaxamos e o trabalho nasce de uma intenção amorosa, que pode ser ajudar as pessoas, a consequência disso é a prosperidade e os caminhos começam a se abrir.

Há dois anos eu estava com medo de não conseguir pagar essa casa [referindo-se ao imóvel que abriga a sede do O-DGI]. Ainda sinto resquícios desse medo, mas hoje ele me incomoda muito menos.

Eu iniciei este estudo que eu chamo de "Arte da Guerra Interna" a partir da observação desse medo. Quando eu percebi que não adiantava eu fugir do medo. Eu precisava ficar com ele, e senti-lo. Eu comecei a focar nele, a ficar em silêncio e ao sentir esse medo nas minhas células e comecei a treinar minha capacidade de não reação. Eu parei de julgá-lo como bom ou mau e me limitei a sentir. Quanto mais eu ficava com ele, menos ele me incomodava e mais eu comecei a manifestar prosperidade do lado de fora e a coisa foi se abrindo.

Se eu fujo do medo, não desenvolvo maturidade emocional. Na verdade o medo estava me fortalecendo. Conseguir ficar com o medo sem reagir significa que eu estou mais forte, ser capaz de a partir do estado de presença, não permitir que ele tome conta de mim e, quanto mais eu consigo, mais forte eu me torno para poder lá na frente sustentar a prosperidade.
Difícil mesmo é sustentar a luz, não a sombra.

DA - Muitas pessoas têm o ímpeto e a coragem de fazer uma transição, mas depois sentem dificuldade de se firmar na matéria trabalhando com seu propósito. Naquela época, como você fez para se manter firme no propósito apesar das dificuldades? Depois de identificar o seu propósito, quais foram os seus primeiros passos?
FB - Eu comecei com alunos particulares e, a partir daí eu fui ampliando a minha energia. Conforme o O-DGI ia me exigindo mais energia eu ia dando mais energia para ele e cada vez foi ficando mais claro que o meu caminho era esse.

Naquela época eu ainda trabalhava um pouco na noite, porque uma parte minha queria ser músico, tocar na noite e fazer sucesso com banda. E isso foi desmoronando porque a energia do O-DGI me puxou para um caminho oposto: acordar cedo e me dedicar à saúde do corpo. Trabalhar na noite significava ir dormir tarde e lidar com a energia da noite. Aos poucos eu fui vendo que não fazia mais sentido.

No começo, não tinha tantas escolhas, eu tinha que fazer o que aparecia. Então se eu tivesse um aluno particular de Jiu Jitsu ou de O-DGI, marcava aula. Onde aparecia trabalho para eu fazer eu ia. Até que chegou um momento em que eu tinha 07, 08 aulas por dia e também fui percebendo que também não era por aí.

Hoje trabalho de um jeito mais racional, dou aula de manhã, outra a noite. Uma aula particular no meio do dia, mas eu não loto mais o meu dia com tantas aulas. Hoje trabalho também com grupos, em que reúno muitos alunos.

De alguma forma essa consciência eu mantenho até hoje. Todos os convites que aparecem para o O-DGI eu observo e se der, eu vou. Eu acredito que toda porta que se abre é uma oportunidade, mas foi assim que a coisa foi acontecendo.

No meio do processo eu passei por dificuldades em vários setores. Não só com relação ao Dharma, mas também nos meus relacionamentos. E, em muitos momentos, até mesmo o O-DGI eu cheguei a questionar.

DA - O que fez você sentir, apesar das dificuldades e questionamentos, o caminho era por ali?
FB - A sensação de eu saber isso. De sentir que o conhecimento já estava comigo. Eu sinto que esse caminho do guerreiro que O-DGI manifesta tá aqui dentro. Está vendo esses livros? [referindo-se aos livros que preenchem a parede da sala de espera]. Eu já li todos e por mais que eu lesse livros, chegou uma época em que parei de ler. Porque o que está no livro é do outro. É a experiência do outro. E sinto que dentro do meu coração eu já carrego tudo do que preciso. Essa clareza que o O-DGI traz já está dentro de mim.

A sensação que tenho é que a minha alma é guerreira e ela já sabe tudo do que preciso. Essa sensação de que o O-DGI já estava dentro de mim me trouxe muita confiança e sentia que os ensinamentos viriam conforme eu fosse amadurecendo.

Recebendo a faixa preta de Sri Prem Baba em 2010

Recebendo a faixa preta de Sri Prem Baba em 2010

Entendi isso porque dentro do meu caminho existe um mestre. O Prem Baba é meu mestre e também é o meu Sensei de arte marcial. É ele quem me ensina o bom combate, a boa batalha.
Eu me lembro de que, quando tive essa percepção, disse a ele, "você é meu Guru e também é o meu sensei. Você me ensina a arte da guerra".

O que me segura na dificuldade é essa arte da guerra, essa fé no caminho, a fé no amor.


 

DA - O caminho do propósito seria então esse caminho do coração?
FB - Está cada vez mais claro que quando eu estou no caminho o meu coração pulsa. Eu nem sei se o O-DGI é o caminho… Às vezes eu sinto que o O-DGI é uma parte da minha missão. Se o O-DGI um dia tiver que acabar, que acabe e está tudo bem também. Eu acredito que o caminho é sentir o coração e desapegar no momento em que não fizer mais sentido.
Um novo caminho está se abrindo para o Fernando Palestrante que fala sobre a arte da guerra. O O-DGI é só uma criação do Fernando Belatto e também posso levar os meus conhecimentos sobre a arte da guerra por meio das palavras. Essa vertente faz parte desse caminho e já não é uma prática física.
Acredito que o Dharma, o propósito vai se revelando aos poucos. Ele não chega ao fim e pronto, acabou. Acredito que com o tempo novos produtos, novas experiências, novas histórias vão surgindo dentro do caminho.

Sinto que não vou dar aulas para o resto da minha vida. Existirão outros professores fazendo isso, sinto que o meu propósito é ajudar as pessoas a vencerem a guerra interna delas. Se eu vou fazer isso por meio do corpo, da música, de palavras, não importa. O que importa é eu ajudar cada um a resolver a guerra interna. Esse é o meu papel.

DA - Você nos contou no seu talk, que um dos pilares do treinamento do guerreiro é o olhar para a ancestralidade. Como foi para o Fernando construir a ponte entre a ancestralidade, o presente e o futuro?
FB - Eu comecei a perceber que algumas coisas na minha vida eram bem da ancestralidade e que eu ainda não tinha feito esse link. Por exemplo, quando eu comecei a desenvolver o O-DGI,  me afastei muito da minha família, da minha academia de jiu-jitsu e não percebi que estava me distanciando das minhas raízes. Nessa época, só não me distanciei do meu guru. Segui nesse caminho, o O-DGI começou a se desenvolver e dentro de mim começou a surgir uma vontade de rezar. Em cerimônias védicas comecei a honrar a ancestralidade da linhagem Sachcha [nas tradições védicas existe a transmissão direta de conhecimento de um guru para seus discípulos. Sri Prem Baba foi reconhecido por seu guru Sri Sachcha Baba Maharajji como o quinto mestre desta linhagem] que é a linhagem do Baba. Como ele é o meu mestre, sentia que fazia parte eu honrar a ancestralidade dele também.

Eu estava ali naquela salinha que você conheceu, no mandir [em sânscrito, significa o lugar onde a mente se aquieta e o espírito pode livremente buscar paz, alegria e conforto. É o local onde se faz orações e cultos] onde de domingo a quinta eu faço orações védicas para honrar a ancestralidade e aos poucos, especialmente esse ano, eu fui sentindo uma vontade muito honesta de voltar para a Gracie que é a minha academia de origem de prática das artes marciais. Este ano eu também me aproximei da minha família.

DA – E como foi esse movimento de reaproximação?
FB - No início, quando eu comecei, foi bastante difícil porque até eles duvidavam do O-DGI, tinha muito julgamento da minha parte, de meus pais, da Gracie [em referência a Ryan Gracie]. Eu não sei se existia mesmo, se era coisa da minha cabeça, mas o fato é que existia uma separação. Aos poucos essa impressão de separação foi caindo e eu senti uma vontade sincera de me aproximar das minhas raízes: do meu pai, minha mãe, meu mestre e amigos da arte marcial terrena onde fui iniciado. E, conforme eu fui chegando sem julgamentos, eu pude compreender o brilho, a beleza e a sabedoria deles e aprender muito com cada um. No caso da Gracie não só aprendi Jiu Jitsu, mas também sobre a vida e sobre as artes marciais. Não é porque eu estou em um caminho espiritual e sou discípulo do Prem Baba que eu sei mais do que o outro sobre o que é o amor. Eu percebi que achar isso é um julgamento que me afastava de mim mesmo e das pessoas à minha volta. Como se eu acreditasse que, por trilhar o caminho do autoconhecimento, eu era melhor resolvido que o outro. 

Na aproximação, descobri que existiam partes de mim que gostavam de estar lá, que amavam aquelas pessoas, aquelas experiências e não me colocar nesses lugares, era atentar contra mim mesmo. Foi maravilhoso voltar.

Recentemente meu mestre da Gracie veio aqui no O-DGI e ministramos um seminário juntos. Muitos faixas pretas de lá vieram e isso contribui para da força ao O-DGI, legitimando o método como arte marcial.
Naturalmente, eu comecei a perceber que um dos pilares do O-DGI é honrar os ancestrais.
Quando eu curo a minha ancestralidade eu tenho uma base forte para crescer.

DA - Como isso funciona na prática?
FB - Aconteceu uma coisa muito legal, amanhã mesmo eu vou a grande academia, reconhecida nacional e internacionalmente, para dar uma prática de jiu-jitsu só para os faixas pretas, mas na linha do O-DGI, incluindo a meditação, fundamentos da ação e reação. Meus professores da Gracie conhecem o meu trabalho e já havia conversado com eles sobre a minha missão, mas, mesmo assim, senti a necessidade de ir comunicar a eles sobre minha ida a essa academia, pois queria que eles estivessem cientes do trabalho que realizaria lá. Eles acharam legal ver o O-DGI crescendo, me apoiaram e agradeceram-me por avisá-los. É bacana pisar em um lugar com o aval dos meus mestres e professores e perceber que está tudo alinhado, que está tudo certo, sem enrosco.

São coisas práticas que na correria do dia-a-dia parecem simples e bobas. Não existe certo nem errado. A meu ver esse tipo de cuidado é uma forma de honrar a ancestralidade e as raízes. É uma forma de respeito e lealdade. Acredito que esse cuidado constrói uma base firme. O trabalho fica ainda mais forte e mais potente. Essa é a importância de cultivar as raízes.
Sabe aquele costume antigo do filho pedir a bênção pro pai? Isso para mim é honrar a ancestralidade. É ir até uma de suas raiz sua pedir a bênção. Então se caminha para frente, tem-se a benção do que veio antes. Não se está contra. E isso dá muita força.

Festa de Graduação em 2017, com Sri Prem Baba.

Festa de Graduação em 2017, com Sri Prem Baba.

DA - De um modo geral, as pessoas mais resistentes ao movimento de mudança são aquelas que estão mais próximas. Você nos contou que, no começo, seu pai achou que você havia ficado maluco. Além do seu pai, você enfrentou outras dificuldades de relacionamento? O que o Fernando daquela época fez para lidar com isso?
FB - Naquela época, eu senti muita revolta. Sempre fui mais artístico, uma pessoa mais intuitiva, no entanto,  meu pai, que é empresário, é mais racional e, por isso, bem pé no chão. Tínhamos dificuldades de nos entender, por sermos bem diferentes. Hoje eu também sou empresário e, para administrar o O-DGI, eu preciso ter o pé no chão. Por não ter compreendido a importância dessa forma de ser, bati muito de frente com meu pai.

Esse conflito foi importante porque, graças a ele, eu consegui atravessar uma barreira e construir força para ir em frente mesmo assim. Talvez se eu não batesse de frente, seguiria o caminho que ele queria para mim: trabalhar em uma empresa, com todo apoio dele, entretanto não era o que eu queria. A coragem de bancar o que pedia meu coração, não foi um movimento fácil, mas muito importante.

Hoje, entendo que tudo isso também era o amor dele em movimento. Ele estava preocupado com o filho e queria que eu trilhasse um caminho mais garantido, onde não passasse por dificuldades. Hoje, entendo que meu pai fez o que ele acreditava ser o melhor para mim. Eu não sou pai. Eu tenho hoje um enteado, mas não tenho a dimensão do que é ser pai. Não sei como seria se visse meu filho tendo dificuldades de escolher um caminho. Não sei se conseguiria ficar sem me intrometer, acho que é muito difícil não colocar esse desejo instintivo de proteção na frente. Eu conheço apenas o lugar do filho, que deseja a liberdade de viver a própria vida e, para isso, é preciso voar nas asas da coragem.

Para quem vive isso, acredito que o melhor a fazer é se abrir para conversas sinceras e entender o outro lado. Honrar a ajuda, agradecer os conselhos, mas acima de tudo, de uma forma amorosa, deixar claro que a iniciativa de buscar o próprio caminho é uma necessidade.

DA - Para você, qual a diferença entre honrar essa ancestralidade e desapegar do consentimento, que pode vir ou não?
FB - Eu acredito que, quando a gente tem o consentimento, é mais fácil. Mas nem sempre isso vai acontecer e precisamos seguir nosso coração mesmo assim.
Penso que onde há muita guerra, existem situações a serem resolvidas dos dois lados. Uma boa conversa conduzida, com gentileza, dando ao outro a oportunidade de compreender o desejo alheio, qualquer pessoa, será capaz, onde você seja capaz de ser generoso também na escuta, e facilitará o outro a ir além da racionalidade para apoiar essa busca pela felicidade.

Isso não é garantia, mas não custa tentar [risos].

De qualquer forma, no final das contas, o importante é mesmo ouvir o coração.

Na minha história, o que aconteceu foi que a partir do momento que meu pai percebeu que o O-DGI estava dando certo, que o meu trabalho deixava as pessoas felizes e que financeiramente o meu negócio estava prosperando, ele foi relaxando. Hoje eu percebo que meu pai tem um grande orgulho disso tudo aqui, mas ele precisou ver isso acontecer na matéria.

Isso me lembra bem aquela música do Zezé Di Camargo e Luciano [e começou a cantar "No dia em que eu sai de casa"], é óbvio que os pais querem os filhos ali por perto, mas eles também sabem em algum nível, que o filho precisa seguir o caminho dele. E esse caminho é do mundo. Mas na música a mãe dá a benção: "Em minhas orações / Eu vou pedir a Deus/ Que ilumine os passos seus".

A música é sertaneja, eu tenho raízes  e um vínculo com o interior muito forte e lá essa história da bênção é bastante importante. É claro que essa coisa precisa ser compreendida pelo pai, no sentido de não se apegar às próprias dores, medos e preocupação, compreender que o filho precisa ir e dar a bênção.

Essa tradição está presente nas raízes do guerreiro. Os samurais têm um vínculo muito forte com a família, com os descendentes, com a linhagem e com o clã. Essa essência quando mal compreendida, leva à separação, às competições de qual família é melhor ou pior. Bem compreendida essa tradição leva a algo muito lindo, leva à cura. Eu acredito que a cura de todos nós está na família. Honrar a ancestralidade é um trabalho de cura com as raízes.
Enquanto não estivermos em harmonia com o nosso pai e nossa mãe, nossas raízes não estarão em harmonia. Quando a raiz está curada, a árvore cresce e gera frutos.

DA - Você nos contou que no seu passado de disciplina e de honra da relação mestre-discípulo aprendidos nas artes marciais preparou-o para a relação que você veio a desenvolver com seu guru, Sri Prem Baba. Para muitas pessoas essa relação é muito abstrata e, algumas vezes, até mesmo incompreensível. Você pode nos contar um pouco sobre essa experiência? Como essa relação foi construída? Que diferença fez na sua vida poder contar com o apoio de um guru?
FB - O que eu vou falar pode parecer fanatismo. Mas para mim não é. É realidade.
Para mim esse capítulo foi o mais importante da minha vida. Eu sinto que compreendi o que é um mestre. O mestre não é aquele corpo. É uma alma realizada e usando o corpo para uma missão. Ele é um ser iluminado que alcançou a transmutação do eu inferior, das maldades internas e consegue viver em estado de presença praticando ações conscientes. Ele, por ter passado por situações semelhantes às vividas por nós, consegue nos guiar. Sem sua orientação, sinto-me um perdido no meio do deserto. O O-DGI que eu tenho hoje foi construído com o apoio da clareza dos ensinamentos e das práticas espirituais proporcionadas pelo mestre. Ele me treinou espiritualmente para eu poder lidar com as dificuldades da matéria.

Sem esse ensinamento espiritual, não sei se eu teria conquistado e suportado o caminho a percorrer. Acredito, inclusive, que o mundo material está essa bagunça porque falta um mestre espiritual para nos guiar. As pessoas estão precisando de um mestre e isso não deveria ser confundido com religião, que, muitas vezes, gera tantas guerras.

Mas eu acredito na existência de um mestre amoroso que pode me guiar no caminho do amor. E eu não estou falando de religião, mas de espiritualidade.

DA - Como a espiritualidade apoia você na vida prática, no seu dia-a-dia na matéria?
FB - Me apoia completamente em tudo. A prática da meditação, me permite ter maior consciência em cada uma das minhas ações, e apura a forma como me relaciono e a trato as pessoas. Além de me ensinar a cuidar melhor de mim e da minha alimentação.
Para mim espiritualidade significa estar mais perto de mim mesmo. Estar em mim em espírito. Eu acredito que isso aqui é só um corpo e que eu sou na verdade um espírito habitando esse corpo. Quanto mais próximo eu estiver da alma que habita esse corpo e ela puder manifestar a luz dela, eu estarei na espiritualidade. Serei eu vivendo mais próximo do meu espírito, de quem eu sou de verdade, só que na matéria.

Tudo o que me ajuda a voltar para a essência é importante para viver melhor no dia-a-dia. E o Prem Baba me ajuda nisso, ele me ensina esse caminho do amor.
O amor é espiritualidade.

Tem uma foto do Prem Baba no Dojo [Dojo é a sala usada para o treinamento das artes marciais. Do significa "caminho" e Jo "lugar",  seria o "lugar do caminho" ou o "lugar da iluminação". O é mais que um simples espaço e por este motivo é comum ver os praticantes reverenciarem a área], mas eu jamais induzirei algum aluno a ser discípulo dele, isso não existe. Cada um é livre para escolher quem deseja seguir. Mas eu mantenho a imagem do meu guru porque O-DGI segue os ensinamentos dele.

No Mandir eu honro todos os meus mestres e meu mestre marcial está ali também.
A diferença é que no O-DGI nós trazemos preceitos da guerra espiritual, porque eu ensino o autoconhecimento junto com a arte marcial: é a prática física que ajuda a vencer a batalha do dia-a-dia para que se chegue cada vez mais perto do seu espírito.
Isso eu não aprendi na Gracie. Isso eu aprendi com o Prem Baba, por isso o considero um mestre do O-DGI. Acho que é preciso humildade para honrar um mestre e sinto que o ocidental tem muita dificuldade em baixar a cabeça para alguém e admitir que não sabe de nada, que não tem certeza de nada e que está perdido no ego e na ignorância, apenas repetindo padrões.

Agora se você me pergunta: "como você sabe que o Prem Baba sabe o que está dizendo?" eu não sei lhe responder. Com a mente eu não sei responder, mas eu sei com o meu coração.

DA - Qual a sensação de saber ou sentir que se está diante do seu mestre?  Ou, em suas palavras, diante de um ser iluminado que, por ter passado por situações semelhantes às nossas, consegue nos guiar?
FB - Eu sinto muita leveza [risos]. Ele é meu melhor amigo. É uma pessoa que não me julga. É alguém que percebe meus dons e talentos e me dá muita força para que eu possa manifestá-los. Ele não é alguém que vê os meus erros e me culpa por isso, ele me entende e me ajuda a estar no meu melhor. Ele foca em quem eu sou e não no que eu não sou.
Eu percebo que a maior parte de nós ainda foca no que o outro não é, fica valorizando o que o outro ainda não é capaz de ser, focando o erro que foi cometido. Isso para mim não é ser amigo de verdade. Isso é bullying, brincadeira de mal gosto.

O mestre dá força para a sua luz. Ele se conecta direto com o seu coração, então ele sabe quem é você, ele sabe do seu brilho e dá a força que você precisa para brilhar.
Ter um amigo assim na sua vida é um presente!

Além disso ele é meu mestre de arte marcial mesmo. A linha que ele me ensina da arte marcial é bem marcial mesmo e como meu guru ele me ensina o caminho para a iluminação.

DA - Como é o Baba Sensei?
FB - É o Baba que fala da real arte marcial e, quando ele fala, você percebe que ele entende tudo da arte da guerra [risos]. Todo final de ano, nós o recebemos aqui na escola. Ele nos ensina que na verdadeira arte marcial o corpo é apenas uma ferramenta, a arte marcial é espiritual. É o controle do espírito sobre o corpo, sobre a mente e as emoções. No ano passado ele esteve aqui e nos contou de uma prática de arte marcial tão evoluída que envolve apenas mantras e respiração. As pessoas vencem grandes batalhas com mantras e respiração. A arte marcial é uma forma de poder que vence a guerra, que põe fim à guerra. Esse poder na mão das pessoas erradas perpetua a guerra; nas mãos certas, é o poder que conduz à paz.
O Baba é um ser que domina esse poder porque ele consegue sustentar a paz.

DA - Hoje você se considera alguém autorrealizado por ter encontrado um caminho que toca seu coração?
FB - Até certo ponto sim. Ainda não me considero autorrealizado do ponto de vista da iluminação. Ainda tenho as minhas batalhas internas e ainda não consigo sustentar um estado de pureza com o meu coração. Bem objetivamente, ainda percebo medos, inseguranças, vaidade, orgulho. Eu tenho aspectos a serem integrados. Mas, de uma certa forma, eu já estou muito mais realizado do que eu me sentia antigamente. Eu já consigo viver um nível de realização.

DA - O quê mudou?
FB - Eu faço o que gosto. Por um lado, abordo assuntos e pratico aquilo entendo e que escolhi desenvolver. Pago minha vida com isso. Vivo na matéria sem dever nada a ninguém. Consigo viver minha vida na matéria, de uma forma que eu entendo confortável, fazendo o que eu gosto. De quebra, faço outras pessoas felizes e como retribuição recebo o carinho e o amor delas.
Trabalho em uma casa maravilhosa como essa, no meio de São Paulo. Um lugar onde eu entro e parece que estou em um sítio. Passo o dia inteiro aqui, nesse silêncio que eu nem sei de onde vem, no meio de São Paulo. Eu trabalho na "bolha" do O-DGI. Isso sem dúvidas é uma realização.
Por outro lado, eu acredito que é um passo, mais um passo que eu dei. No entanto, ainda há muito para conquistar. Não estou ostentando a ambição material, mas o desejo de cumprir, cada vez mais, minha missão. Por isso há outros estágios a serem conquistados.

Eu sinto que o Dharma tem estágios. Eu sinto que o estágio em que me encontro não é mais o de pagar contas, claro que eu preciso estar atento. Mas isso já está se resolvendo, pelo número de alunos da escola, pelas portas que estão se abrindo, convites que aparecem. Sinto que esta estabilidade material abre caminho para eu poder me concentrar no que eu vim fazer aqui. O básico e a subsistência estão acontecendo, eu posso colocar meu foco na missão principal que é apoiar as pessoas no fortalecimento desse guerreiro interno.

DA - Se alguém, com argumento de autoridade, dissesse a você que essa história de propósito, de expansão da consciência não existe. Que isso é uma bobagem. Como você se sentiria?
FB - Eu sentiria que tá tudo bem. Eu não me oporia. Propósito é só o nome para um estado de consciência. Se quiserem chamar isso de uma coisa ou de outra, não tem a menor importância, são apenas explicações para a mente e o que importa para mim, não são as explicações, mas as sensações.
Podem dar o nome que quiserem para essa sensação de estar fazendo o que eu gosto e ainda conseguir viver disso. Isso não invalida a sensação.

DA - E como é essa sensação?
FB - É só uma sensação. É a sensação de estar encaixado, de se sentir íntegro: "eu tô eu" [risos]. Arte marcial é de algo que eu gosto. Eu gosto da linguagem guerreira e,  quando eu falo disso, vem de dentro. Isso me deixa feliz e pra mim isso é de verdade, se quiserem acreditar ou não, não faz diferença, porque eu já não preciso provar nada para ninguém.
Se disserem que não existe, não muda nada e não sou quem vai brigar para provar que existe sim. Isso seria uma batalha egóica.
O caminho do guerreiro me ensina é parar de brigar. Se eu quero brigar pelo meu ponto é porque existe guerra dentro de mim.
Ser convidado a falar e expor o que penso é diferente de querer forçar a barra para impor aquilo que eu acho que sei. Se existe vontade de impor é porque há dualidade e se há dualidade ainda há aspectos a serem integrados.


 

Com Sri Prem Baba, 2017

Com Sri Prem Baba, 2017

"O caminho do guerreiro é o de observar, estar presente, de fazer aquilo que precisa ser feito e estar aberto para as oportunidades, para o fluxo da vida que está acontecendo."
 
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