Leve a Brincadeira a Sério

Por Lucila Lobo | Fotos: Acervo pessoal Diego Sangiorgi

Toquei a campainha e do outro lado do portão um menino de bermuda e chinelos apareceu sorridente, como se estivesse pronto para brincar. Se você acha que me refiro a uma criança, talvez você esteja certo. Mas não descrevo uma criança comum, e sim uma que habita o corpo de um adulto.

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Diego Sangiorgi tem 30 anos, formou-se na área de ciências biológicas e especializou-se em biomimética de estruturas e processos naturais. Usa seu conhecimento e aprendizado com o propósito de integrar a observação dos fenômenos naturais e dinâmicas dos sistemas vivos à organizações sociais, fenômenos de rede (swarming e murmuration) e compartilhamento de recursos e informações (crowdfunding e crowdsourcing). Aplica também em seu trabalho novos conceitos da física como sintropia e campo unificado.

Caso você tenha se perdido tentando entender o significado de algumas – ou de boa parte – das palavras do último parágrafo, você não é único. Ele mesmo ri disso e repete a lição que aprendeu com uma criança recentemente: “se faz sentir, se faz sentido”.

Diego esteve conosco no Dharma Talks #2 e para quem assistiu ao vivo ou online sua palestra talvez possa concordar que a mente racional nem sempre precisa entender tudo para compreender a essência das coisas. Diego fala com paixão sobre suas ideias e é difícil não sentir nada enquanto ele expõe princípios, teoremas, fatos históricos, teorias genéticas e evolucionistas. Como mágica, o campo integra tudo, e no final algo lá dentro de cada um de nós sinaliza que faz sentido mesmo.

Há cinco anos fundou o Instituto Vector Equilibrium para desenvolver pesquisas e projetos. Seu trabalho é focado em tecnologias para inovações e melhoria multidimensional das condições planetárias e a harmonização das relações entre os seres do planeta. Foi nesse laboratório, em meio a engenhosas invenções, símbolos sagrados, bowls e sinos de meditação e um tanque de flutuação que meditamos, alinhamos nossas intenções: trazer informações precisas para a evolução de cada indivíduo e do planeta. Abaixo você encontra os principais trechos do nosso bate-papo sobre propósito, sonhos de criança e como juntar as pistas que conduzem ao caminho do Dharma.

Como foi o encontro do Diego com o propósito?
DS -
Na minha história não houve uma grande ruptura, um grande ponto de mudança. Foi um desabrochar de algo que já vinha sendo trabalhado. Eu simplesmente fui quem eu sou. Escolhi manifestar e a expressar a minha essência. Eu não passei por um processo de negação da essência, de ir por um caminho até perceber que aquele não era meu caminho, sentir um vazio e querer encontrar o meu propósito.

Desde quando eu aprendi que o mundo é muito vasto, percebi que a diferença entre o homem mais sábio e o mais ignorante, é ínfima perto do que ambos desconhecem. Eu sempre soube que quanto mais eu caminhasse, mais eu enxergaria. Já era uma vontade de trabalhar com essências, com os seres, com a história, com o processo evolutivo desde pequeno.

Eu falava que eu ia ser quatro coisas: explorador, arqueólogo, astronauta e padre.

Como era o Diego criança?
DS -
Essa é melhor perguntar pra minha mãe (risos). Era muito parecido com o que eu sou hoje, em miniatura. Eu fui criado em um campo de liberdade, onde eu pude desde cedo expressar e manifestar meus dons e talentos por mais imperceptíveis que eles pudessem ser naquele instante. Eu já tinha laboratório quando eu era criança. Eu tinha bichos e insetos no meu laboratório. Desde criança eu sempre tive esse Labor Oratório, esse lugar de oração e trabalho, de comunhão com as essências do universo.

Eu sempre fui aficionado pela natureza. Hoje eu não teria isso, mas naquela época eu tinha vidrinhos de formol com morcegos, com sapo, grilos e todos os tipos de bichos que se pode imaginar. Tinha os bichos vivos também. Tinha aranha, escorpião, cobra. Aquilo ali era meu santuário, meu lugar de estudo, de estar em comunhão com as forças da natureza. Por mais que eu não soubesse que era isso, naquela época. Ali eu sentia prazer. Estando ali, eu estava também perto dos meus desejos, da arqueologia, da exploração. 

Nem todo mundo teve oportunidade de ter uma infância livre. Tanto por conta do modelo educacional,  quanto em função de modelos e crenças de família do tipo, "não faz isso que você vai se sujar"; "isso é perigoso". Essas crianças cresceram, viraram adultos.

Qual conselho você daria para um adulto que deseja se conectar com essa criança que foi limitada no seu livre brincar?
DS -
Olha, eu diria para essa pessoa parar tudo o que ela está fazendo agora, parar correndo e se conectar com a essência. Com a lembrança e o pensamento mais profundo da infância. Eu acredito que cada um tem uma "caixa de ferramentas", um leque de memórias da infância. E vão ter aquelas memórias que trazem uma sensação de liberdade de realização.

Acho que eu diria para essa pessoa se conectar com essa sensação e de alguma forma perguntar para essa criança, ou para essa sensação que remete à criança: o que eu preciso fazer agora para sentir isso de novo? Qual o seu sonho?

De alguma forma se ligar ao sonho do que você queria ser quando crescesse.

Eu acho que aquela primeira resposta, a mais espontânea e genuína é um bom norte para começar a entender e definir aquilo que a gente tá chamando de propósito.

Quando você falou que nem todo mundo tem a oportunidade de ter uma infância livre, no meu caso, houve respeito pelo meu processo de ser criança. Eu fui uma criança que podia falar. Ali no meio dos adultos eu podia falar.

Outra coisa interessante é o parâmetro de liberdade, eu não posso dizer que fui 100% livre ou 90% livre, eu não sei. Eu sei que pude ter liberdade dentro do paradigma que estava inserido no momento, claro, senão eu botaria fogo em casa. Eu, meu irmão meus amigos… a gente mexia com tudo: bichos peçonhentos, gasolina, pólvora, bomba, eletricidade da mesma forma que patins e bicicletas.

Claro que se não tiver uma vigilância, uma observância um cuidado de alguém, mas eu não apoio esse tipo de educação restritiva e protecionista. Eu sou liberal quanto a isso, o ser para aprender precisa ter contato com a realidade.

 

Qual opinião você daria para pais, educadores, ou para qualquer pessoa que convive crianças?
DS
-
 Deixe as crianças brincarem. Elas são esponjas e o processo de alfabetização pode limitar. Uma brincadeira que costumo fazer é justamente em relação a este termo, alfabetização o processo de ir de alfa pra beta, fazendo alusão aos tipos de ondas cerebrais, o problema é que quando nos condicionamos demais a isso, o processo inverso de “betalfatização” de ir de beta pra alfa se torna difícil, é ai que entra a importância da meditação, da mudança de olhar sobre as coisas por exemplo. Quem sabe o que é e o que não é brinquedo, é quem está brincando. Quem sabe o que é e o que não é brincadeira é quem vai brincar. Acho que é muito importante deixar as crianças se desenvolverem livremente - claro, que você não vai deixar uma criança colocar uma pilha na boca e engolir - mas deixar esse processo do criar, do brincar livre. Deixar ela explorar e instrui-la somente qdo necessário ou quando for pedido e ai sim trazer o melhor da sua verdade. Ou pelo menos o mais flexível, o mais solto o possível. Para que a criança explore. Aprenda os limites.

Física e fisiologicamente nascemos com um monte de pontinhos espalhados, dentro do nosso cérebro, que ainda não foram ligados. Conforme a gente vai aprendendo e vai experienciando esses pontinhos vão fazendo ligações e formando uma rede, um sentido. Sob este ponto de vista objetivo é isso que nos torna quem somos. Quanto mais amplo, quanto mais exponencial for esse arranjo, de poder fazer ligações de forma fatorial com cada neurônio a partir de cada experiência mais a criança poderá se desenvolver.

Outra coisa importante é não limitar o campo da criança com suas próprias crenças limitantes. Um pequeno exemplo:

Outro dia veio uma criança aqui, que devia ter uns nove anos e mãe dela, seus 27/26 aí a menina apontou para essa peça (veja imagem abaixo)

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e perguntou: "Tio, o que é isso?". Aí eu comecei a explicar como se fosse uma história para criança, um conto de fadas, usando termos da física, da relatividade. Aí a mãe dela falou: "para, para, para que ela não vai entender" e eu falei: "não. Você que não está entendendo. Não limita a criança, não projete esse não entendimento que é seu. Ela é uma esponja, esta tá entendendo e absorvendo. Mas a partir do momento que você fala para ela que ela é muito nova para entender isso ou que ela ainda não vai entender aquilo você está criando um bloqueio. Por você ser a mãe dela, ela vai respeitar, acolher esse comando e se contentar com essa limitação".

Foi nessa natureza questionadora e não-conformista que eu fui criado.

De forma prática como esse livre brincar apoiou a evolução e o amadurecimento do Diego?
DS -
Eu costumo pensar que o que eu faço hoje é exatamente a mesma coisa que eu fazia antes. Mudou o lugar, mudaram os brinquedos, mudou a consciência, o entendimento, a cognição e a responsabildade sobre cada atividade, mas eu faço a mesma coisa.

Até hoje eu estou brincando, explorando, construindo.

Eu acredito que esse dom, esse talento e esse propósito está enraizado desde que você nasce. Se você não for contra ele. Se você não limitar, não podar, o ser em desenvolvimento continuará a fazer aquilo que já faz com paixão.

A minha natureza de questionador, construtor e cientista, e observador da natureza é a mesma. O que eu fazia com minhocas, formigas, terra é a mesma coisa que eu faço hoje com minhas criações.

Eu sou uma criança grande. Acho que todos nós somos crianças grandes. Às vezes eu sinto que a maior parte das pessoas dão uma grande volta para depois poder brincar com o que desejam brincar. Pessoas bem-sucedidas são crianças grandes brincando com brinquedos maiores e realizando seus sonhos.

Falando em adultos bem-sucedidos, qual sua própria definição para sucesso e realização profissional?
DS -
Crescer e ter a liberdade de brincar com o que se quiser. Quer um exemplo? Elon Musk.

Ele é um cara que leva a brincadeira e o jogo da vida a serio. Tá brincando com carro elétrico, com energia solar e exploração espacial. Se você for ver direito, essas eram as coisas que ele sonhava em fazer quando era criança. E só está colocando em prática. Ele disciplinou, organizou, institucionalizou e elevou ao status de arte, de labor para poder continuar brincando.

O que eu estou fazendo aqui no instituto é a mesma coisa. Nós apenas institucionalizamos e disciplinamos para poder continuar brincando e sofisticando a brincadeira.

O que é essa brincadeira? O que é esse brincar?

É lila ou maha lila. A brincadeira de jogar o jogo de luz e sombra, a brincadeira de viver.

Se a gente conseguir levar a vida nesse estado… O brincar não quer dizer que eu não estou levando a vida à sério. O brincar não é isso, brincar não é fazer de qualquer jeito. Esse brincar é disciplinado, tem qualidade, propósito.

Observe duas crianças de cinco anos brincando de casinha ou de fazer castelos de areia. Eles estão concentrados, eles estão levando a sério a atividade. Então é trazer a mesma seriedade do brincar para a vida adulta com a mesma alegria das crianças.

 

Você falou que a criança, quando livre, manifesta seus dons e talentos de forma espontânea. Uma das definições de propósito é usar dons e talentos a serviço da própria evolução e do mundo à sua volta. A qual causa você serve?
DS -
Aproveitando esse mês das crianças eu vou fazer mais brincadeiras. Eu vi uma camiseta esses dias que eu achei genial, acho que a frase é do Terence Mckenna:  avoid gurus & follow plants. Essa é uma frase engraçada que traz uma reflexão que se aproxima muito do que eu penso sobre essa pergunta. Somos professores e aprendizes a cada instante ao estarmos abertos e atentos a isto aprendemos com tudo, com cada elemento, com cada nuance, cada movimento, com cada pessoa. Somos um reflexo da absoluto e assim refletimos uns nos outros ensinando e aprendendo aspectos relativos sobre o absoluto a cada interação em todos os reinos e forças minerais, plantas fungos animais tudo...

Sirvo a força de toda força, ao universo, à vida, às forças da natureza, às forças dos elementos, do céu e da terra. Sinto que somos instrumentos e canais dessas forças e o meu trabalho é me afinar cada vez mais, para que eu possa ressoar com coerência a essas forças. Cada vez mais.

Nesse servir, tenho comigo outras pessoas servindo às mesmas forças, ao mesmo vetor evolutivo e de transcendência e por ressonância nos unimos no proposito coletivo.

Vou fazer uma ilustração: eu vejo como se fossem vários barcos navegando em um mesmo mar. Cada organização, cada iniciativa, cada pessoa é um barco.

Se olharmos para o proposito coletivo estamos navegando para um mesmo lugar, e podemos ir juntos dar as mãos. Podemos navegar em esquadra. Nessa navegação cooperativa podemos trocar papel por areia, sal de um barco por água de outro. Trocando recursos e informações entre os barcos todo mundo ganha, mas o importante é termos não só a clareza, mas a verdade de compartilhar a informação completa sobre o destino que se almeja alcançar. Eu não vou colocar minha energia ou a minha intenção para ir no seu vetor, e também não vou pedir para você desviar sua rota para vir comigo se essa não for a verdade do momento. Eu acho que quando a gente tá trabalhando com evolução da consciência, mudança de paradigmas esse respeito é muito importante. Tudo isso aqui [falando da realidade à nossa volta] é só um arquétipo, uma ilusão, um reflexo. E se não houver verdade é o ego falando, já não é mais o propósito falando. É a vontade daquele que está pilotando o barco, querendo se sobrepor à vontade daquele campo consciencial do barco e tudo e todos que o envolvem.

Cada um deve navegar com liberdade dentro de sua própria verdade e com a consciência que somos extensões do mesmo corpo. Trago esta parábola dos barcos na intenção de despertar união, criar alianças, pontes e não de aumentar a ideia de separação, exclusão e propriedade. Acredito que esta seja nossa lição como humanidade, aprender a navegar juntos, compartilhar, ver que o que nos une é maior que o que nos separa, nos unirmos no proposito coletivo e planetário sem perder a essência e a tonalidade individual. Buda dizia que não queria seres iguais ao seu redor e sim seres autênticos. Este é um jogo que só chegaremos a vitória juntos.

 

Se a pessoa não tem clareza para onde ela tá indo, ela pode se deixar seduzir pela verdade do outro, pela história que o outro contou para convencê-la a remar... Na sua visão o que pode ajudar às pessoas a terem clareza sobre essa verdade?
DS -
Duas coisas:

A primeira é que não tem problema nenhum querer andar no barco do outro. Nem todos precisam querer construir seu próprio barco. Eu fui uma pessoa que gosto e me dispus a construir um barco para me levar junto com aqueles que ressoam nesse vetor nessa frequência , e  para ter a liberdade de mudar o curso no momento que a gente quiser e entender necessário. Mas isso vai de cada um.

Por exemplo, uma pessoa que serve no remo, eu sei que nessa grande embarcação o meu melhor lugar é estar aqui remando. E eu não estou disposto. Não faz parte da minha história querer construir um barco. A minha verdade é querer fazer parte da tripulação do melhor barco construído. A pessoa pode querer ser o imediato do remo do melhor barco que existe. Qual é esse barco? Da natureza? Da tecnologia, do amor?  De quem é esse barco? É o barco do Musk? Do Dalai Lama? Da AMMA? Então, é nele que eu vou. Então vai de cada um.

A segunda é como chegamos na clareza? Através de autoconhecimento.

O [Carlos] Castañeda trouxe para a literatura essa informação de forma poética e dividiu o processo de autoconhecimento em quatro estágios, os quatro passos para a autorrealização e superação do medo: a euforia, a clareza, o poder e a liberdade.

A euforia é onde a maioria dos buscadores está. É momento em que você se dá conta de que o amor existe e ele te toca. É o momento em que você percebe o divino agindo através de você. Isso pode ser quando se é criança, pode ser com 50 anos de idade, pode ser no final da vida, pode ser nunca. Se você tiver com vontade de responder àquelas questões essenciais: quem sou? De onde vim? Por que estou aqui? Para onde vou?, se você está na busca, uma hora esse momento te toca.

Muitos encontram através da dança circular. Outros através de um parceiro com quem você tem uma transa transcendental. Muitos em um rito xamânico. Outros em uma meditação Zen. No som, de infinitas formas.

 

E você, quando encontrou isso?
DS
-
Em um rito xamânico. Mas existem várias formas. Nesse momento você percebe que tudo é amor, que Deus é amor e que ele está em todas as coisas e que essa é a força que cria todo o universo. O universo nada mais é do que uma onda mental de amor. O amor é a energia despolarizada, o nome mais despolarizado que podemos dar para alguma coisa é amor.

Sendo assim, o paradigma é sutil. No momento em que você percebe que você é feito daquilo, que tudo é feito daquilo, você começa a sentir o amor pelas pessoas, pelas coisas. E aí surge o desafio: no momento em que você percebe o amor dentro de você, fluindo através de você, você acha que o amor é seu. E se você cair nessa de achar que o amor é seu e que você escolhe para quem dar o amor, você sai do amor. Você criou divisão, separou as coisas e escasseou o sistema. Nesse momento você saiu do ganha-ganha, do campo harmônico e cai em um lugar caótico.

Segundo Castañeda, a primeira chave de transcendência é essa. Tem gente que passa a vida na euforia. Que depois que encontrou um caminho onde sentiu o fluir do amor, acredita que essa é a única forma. Mas a euforia não traz foco, não traz clareza.

Vamos supor que seguindo nesse caminho do autoconhecimento e da transcendência a gente passa de fase. A gente entende que a euforia é algo que vem e vai. É como uma chuva. É um fenômeno de dissipação de energia. Quando pressão atmosférica, umidade relativa do ar e temperatura se fundem, ou se combinam de forma exata, a chuva acontece e depois passa. O mesmo acontece com euforia. Ela vem e depois passa. Se você percebe isso, se observa o fenômeno sem se identificar com ele, você vai além.

E aí você chega no que ele chama de clareza. Você tem uma clareza das forças da natureza, você compreende como as coisas funcionam. Ainda que você não saiba explicar, você tem uma ideia. Mas esse caminho também tem as suas distorções. É nessa fase que surgem os falsos xamãs os falsos gurus, os que se intitulam iluminados. São seres que tocam o absoluto, e como um inseto que por não ver o brilho da luz com nitidez não percebe a diferença entre uma lâmpada e a luz da lua podem enfiar os pés pelas mãos. O que esse toque do absoluto reverberou em um comportamento, em uma atitude, numa ação, como ele foi traduzido em um aspecto do relativo, vai variar de como cada um sabe lidar com a experiência.

Acho que o maior problema é que não temos a paciência e a presença de uma criança olhando para o fenômeno querendo aprender. Você já quer concluir e estabelecer conexões com aquilo que já é conhecido do seu sistema de crenças e valores.

Esse encontro com o propósito, com os dons e talentos ele vai se refinar e se tornar mais claro e nítido, conforme você passar várias vezes por esse lugar, pelo lugar do autoconhecimento. É o momento em que, com humildade você reconhece que não sabe nada. Que você apenas achava que estava começando a entender alguma coisa e diz para o Universo que você reconhece que ainda está em processo de auto lapidação e pede para ele vir junto com você. Ele vai.

Conhecendo a euforia e a clareza, você ainda assim se coloca como aprendiz diante da vida. É aí que você chega ao terceiro estágio, ao estágio onde você se coloca em um lugar de poder. Que onde realmente os mestres estão. São seres que realmente entenderam a mecânica do universo, perceberam como as forças da natureza agem e conseguem agir em conjunto com essas forças, conseguem co-criar e fluir com elas.

O conhecimento se autoprotege e a parte nunca irá conseguir captar o todo, se ele não tiver em coerência para servir às forças e não ao contrário. Esse grau de interação ou de serviço com as forças é um lugar tão grande, que se necessário pelo proposito ele realmente se porta como um mestre e caminha sobre as águas como por exemplo Jesus.

Agora, há pessoas que se perderam no poder - ou como o mestre Yoda falava em seus filmes - que vão para o lado negro da força - você pode pender para o ego e subjugar seus colegas de trabalho com isso e manipular as pessoas ao seu bel prazer. E aí que acontecem os famosos “tombos” e até guerras.

Agora, se neste momento você conseguir transcender tudo isso e perceber que para realmente ter liberdade não é preciso abdicar desse poder, mas sim saber que ele existe, e ter discernimento de que não convém usá-lo se não a servir ao proposito. Essa é a transcendência, você tem o poder e tem também maturidade para não usá-lo.

Quando você passa dessa fase, você chega à liberdade.

Euforia, clareza, poder e liberdade.

Trazendo isso pro nosso papo aqui, o propósito começa a se delinear na euforia. No momento em que você percebe o amor agindo através de você e que você é feito disso, naturalmente você irá procurar uma forma de dar vazão para esse amor.

No meu caso eu sabia que eu ia trabalhar com energia, mas não sabia com que energia era. Eu achava que era com energia sutil, mas q fosse possível se realizar trabalho com ela.  Conforme a euforia foi baixando e a clareza foi aumentando, eu fui percebendo que eu queria trabalhar com a energia das estrelas. Opa, energia das estrelas a primeira vista é fusão termo nuclear. É isso que eu vou construir, um reator de fusão termonuclear. E aí conforme eu fui desenrolando o meu processo de autoconhecimento, evolução e integração com os aspectos masculinos e femininos da força, com os elementos, eu fui percebendo que não era fusão termonuclear, mas energia que ressoa com o campo de sustentação da matéria.

Então, o destino, o caminho por assim dizer, ele vai te colocando elementos que por mais que não sejam de fato o que vai ser, te guiam para o seu lugar. O professor Amit [Goswami] traz isso: quanto mais próximo do seu propósito, ou quanto mais próximo do sucesso evolutivo do seu ser, mais você estará operando em sincronicidade em fluxo.

Eu diria para a pessoa tentar identificar em qual desses estágios ela está. De verdade e com muita honestidade, onde eu tô? Quais são os fatores que me atraem? Quais me limitam?

Quais são as coisas que tem ressoado sincronicamente? Sin, junto. Cronos, tempo. O que tem ressoado ao mesmo tempo?

O que está sendo milagrosamente colocado na malha do espaço-tempo, no mesmo momento que eu, para que eu testemunhe?

É ter esse olhar investigativo sobre a sincronicidade e autoconhecimento. 

Eu estou com 30 anos e me conheço super pouco. Eu conheço só uma parcelinha do meu ser.

 

Você nos contou, que está à serviço da natureza. Uma das definições de dharma é “lei natural”. E essa lei natural nos trás a interdependência de todas as coisas da natureza, eu não posso ser verdadeiramente, plenamente, feliz se as pessoas à minha volta não forem felizes também. Para essa interdependência acontecer é preciso cuidar de um equilíbrio: à medida que eu sirvo ao outro, me sirvo também.

De que forma você se sente servido, ao servir à natureza?  

DS - Ah! Infinitamente sou servido mais do que eu sirvo. O universo é uma mãe. O dom da vida já é algo dado. O que devemos fazer aqui é de alguma forma retribuir ao dom da vida. Ser grato e externar nossa gratidão ao dom da vida manifestando os nossos dons e talentos no mundo. É isso que nos completa. É o dharma que estamos falando.

Eu não tenho palavras. Eu sou extremamente grato a tudo, tudo, tudo.

Se você pudesse destacar uma ou duas coisas que permitem que você se sinta servido e sustentado no seu propósito, quais seriam?

DS - Primeira coisa. Tudo aquilo que é realmente necessário se manifesta. A natureza é abundante, mas não é inesgotável. Não se deve desperdiçá-la. Então, o recurso natural do ponto de vista espiritual para ressoar  e configurar no físico é muito bem equilibrado. Se eu preciso de cem reais para realizar uma parte do meu propósito, o universo não vai me mandar um milhão. Ele vai mandar os 100 que dá e sobra para fazer com qualidade.

Tudo que eu precisei, se manifestou. O que é preciso aparece. O que não aparece não significa que o universo não está te vendo, é que realmente isso não era necessário.  

A segunda coisa que me nutre são os desafios. Compreendo que algumas situações acontecem de forma diferente do planejado ou esperado, para trabalhar o campo de vulnerabilidade, autoestima, coerência que precisava ser desenvolvido. Para mim isso é muito perfeito.

Esse receber está relacionado ao estar alinhado. Mas o alinhamento não é algo estático, ele é uma tendência. Não dá para dizer eu me alinhei, me iluminei. O trabalho é contínuo. É uma musculação. Aquela metáfora que se vê em algumas ordens iniciáticas e ritos antigos onde encontramos um quadrado no meio de um círculo, isso significa a matéria tocando o absoluto. Esse alinhamento é o quadrado se lapidando para tocar mais o círculo. O quadrado não é o círculo, ele apenas toca o círculo.

Então a gente pode se coordenar como esse quadrado que tende a tocar o círculo, mas é um trabalho que requer constância.

Durante a nossa vida, nosso quadrado toca instantes de iluminação. O nosso desafio é manter essa qualidade vibracional e energética continuamente no seu dia-a-dia. Quanto mais coerência guardarmos com o propósito, mais fluida será a nossa relação com as leis naturais, mais harmoniosa será a nossa relação como construtores da nossa realidade e menos esforço e energia serão despendidos até que isto se torne uma constante.

Eu trabalho para estar alinhado com o meu propósito. Eu cuido desse vetor que me impulsiona para o alinhamento. Não é que nasci reto e alinhado. É um trabalho onde eu provoco o campo e o campo me provoca e juntos criamos esse balanço ressonância e lapidação.

É nítido. Às vezes eu tô mal. Isso significa que existe algo a ser trabalhado para que eu possa trazer coerência e alinhamento para minha vida. Sempre há uma escolha. Podemos escolher estacionar nesse lugar, mas podemos querer melhorar.

Precisamos fazer ajustes microtonais, dentro do ajuste tonal. O propósito é o ajuste tonal. Meu propósito é aqui, bummm. Agora para eu manter essa firmeza no propósito eu preciso diariamente fazer ajustes microtonais. Se observarmos a forma como o universo se manifesta para nós poderemos perceber os indicativos de quão alinhado se está. Precisamos estar atentos à forma como o universo conversa com a gente.

 

 

Como cientista, o que te faz acreditar nessa história toda de propósito, serviço, dons e talentos?

DS - Para mim não é uma questão de crença. É uma questão sobre fatos, por isso eu vou trazer uma hipótese que eu venho estudando há um tempinho e que para mim tem feito muito sentido e traz uma visão macro, medi, micro que relaciona tudo. Então vamos pegar o nosso DNA para estudar. O quê é o nosso DNA. Ele é guardião de todas as informações sobre quem somos de forma física e objetiva.

A pontinha do cromossomo do nosso DNA chama-se telômero. Telômero vem do grego telos. Telos significa o final, o resultado e em interpretação mais ampla, a finalidade, o propósito.

Por que raios tem uma parte do nosso DNA chamada telômero? Para responder a essa pergunta eu vou contar o que ele guarda. E eu me arrisco em dizer, sob minha total irresponsabilidade de biólogo, [risos], que uma das coisas que ele guarda é justamente as informações que nos conectam com esse propósito.

A gente nasce com o nosso DNA completo e esse telômero no final da cadeia do DNA. Cada vez que nossas células duplicam ele perde um item da informação total. À medida que o tempo passa, as células vão se duplicando, informações vão sendo perdidas. A célula então perde informações e se distanciam do que seria uma réplica integral da célula original. Esta célula por sua vez segue se duplicando de forma diferente da original e aí começamos a envelhecer, começam a aparecer rugas, cabelos brancos. O processo de envelhecimento está conectado com a perda das informações contidas no telômero. Esse processo é natural e faz parte do processo evolutivo da humanidade nesse estágio atual.

Qual o paralelo que eu fiz entre esse estudo com o propósito?

Conforme vamos envelhecendo vamos nos distanciando da nossa essência, da nossa informação original. Ou seja, se não orientarmos a nossa consciência para esse dado biológico, podemos nos distanciar do nosso propósito. A probabilidade de uma pessoa mais velha acessar o propósito depois de ter passado boa parte da sua existência distante da sua essência, fazendo coisas contra a sua vontade para atender à padrões sociais e sobreviver é muito menor que uma criança, um jovem que nasce num paradigma de abundância de recursos e informações com liberdade.

Então, eu acredito que está tudo relacionado. No nosso DNA temos a heterocromatina e a eucromatina. A eucromatina é o que chamamos de DNA “verdadeiro”, é ela que forma os códons que são agrupamentos de três bases nitrogenadas. Temos codificados apenas 64 códons, são esses 64 que formam a gente do ponto de vista proteico estrutural, a heterocromatina até algum tempo atrás era considerada o “junk” DNA, resíduo, hoje em dia tem muitos estudos olhando para ela. Mas de um modo geral essa parte é a sobra que não serve para nada. Só que se a gente pegar dois jovens gêmeos idênticos um que é virtuose na arte de tocar piano, se relacionar com múltiplas experiências e vivencias na natureza e outro que foi criado de forma convencional, só jogando vídeo-game e vivendo uma vida dentro do socialmente “normal” e analisarmos a porcentagem de eucromatina e heterocromatina de cada um, suspeito que encontraremos diferenças.

Ou seja, temos mais ou menos de 2 a 4% de eucromatina para 97 98% de heterocromatina. Esse percentual varia de autor par autor, mas o importante é saber que maior parte é esse “lixo”. No meu exemplo se a gente pegar o virtuoso do piano ele terá um percentual de eucromatina maior que o que não cultivou seus dons e talentos. Ele terá uma parte a mais do DNA desperta. Assim, se analisarmos uma pessoa que tem seus dons inatos aflorados, ela terá um percentual de eucromatina uma fraçãozinha maior que o normal, hoje já tem crianças que enxergam no escuro como animais, nosso DNA guarda muitas coisas e muitos mistérios e também a chave para nossa evolução. Esta aberto e interage com o meio, é a sintetize física do nosso processo evolutivo.

Porque eu tô trazendo isso? Porque de alguma forma, micro e macro se relacionam. De alguma forma, o que você aprende, ou o seu dom está codificado no seu DNA ou é desperto a partir do momento em que você o trabalha. Tocar piano tá no meu DNA, mas para ativá-lo eu preciso despertar essa habilidade e expressá-la. Aprender a dirigir um carro é uma habilidade tão exercitada que vira uma extensão do nosso corpo e é codificada no nosso DNA. Tanto que hoje por conta da modulação e atualização de campos morfogenéticos através massa crítica é muito mais fácil uma pessoa de 17 anos aprender a dirigir um carro do que há 100 anos atrás quando pouca gente dirigia. Essa informação, esse comportamento dirigir carro é transferido pro DNA individual que ressoa no coletivo e que de certa forma afeta o campo morfogenético da espécie e facilita o aprendizado.

Meditação será um outro comportamento que eu acredito que vai pegar e fazer parte da nossa constituição celular.

Com toda essa história eu quero dizer que no meu ponto de vista, não existe coincidência para justificar o fato de a pontinha do DNA se chamar telômero.  De forma que conforme a gente vai ficando velho e não trabalha a nossa essência vamos perdendo informação do que é o nosso propósito. Até o ponto em que podemos não mais nos conectar com ela e deixamos de expressar gratidão pelo dom da vida e retroalimentar, desequilibrando balanço natural de entropia e sintropia.

Por isso que é importante, o quanto antes, voltar-se para si e perguntar para o seu corpo: “filhão, dá a letra? Qual é a minha aptidão natural?” É uma super responsabilidade dar conselhos para alguém, mas eu acredito que o autoconhecimento é a chama que mantém acesa a pressão evolutiva, observar as sincronicidades e o que o universo reflete como bússolas para a modulação deste vetor e usar com consciência o que está ao seu alcance aqui e agora. O que eu posso fazer com o que eu tenho no agora?

Fazer o melhor que se pode com aquilo que você tem.

E o principal, perceber o aspecto do feminino e do masculino ao mesmo tempo. O toque das duas essências.

Você já tinha falado disso quando nos contou sua história, na prática como isso funciona?
DS -
A chama que ilumina a busca pelo propósito é o autoconhecimento. Para se manter no propósito é preciso disciplina e a disciplina é um arquétipo do aspecto masculino. Para manter a disciplina também é preciso doçura, e doçura é um aspecto feminino. Sem doçura eu irei me autoflagelar e se eu não for amoroso comigo eu me distancio do propósito. Para ter doçura eu preciso ser firme nela para não perder a paciência e me cobrar demais.

Sempre teremos um aspecto feminino mantendo o desenvolvimento de um masculino para que todos juntos sustentem o propósito. Tudo neste Universo relativo é ressonante e polar e o equilíbrio depende da integração entre as polaridades.

Eu estou num corpo biológico masculino, mas tenho a consciência de que eu tenho o aspecto feminino e masculino dentro de mim. Agora é preciso observar o quanto um se sobrepõe eclipsando o outro, ou sustentando e desenvolvendo o outro dependerá da minha habilidade e firmeza para manter o equilíbrio e o fluxo da evolução.

Só que isso só se aprende na prática e aí vai sendo criada uma escadinha onde uma coisa sustenta a outra que sustenta a outra e assim sucessivamente...

Esse três pontinhos representam perfeitamente a entrevista com esse cientista que não cansa de jogar com as infinitas possibilidades que o campo traz. O vetor espaço-tempo limitou a conversa, mas ficou a sensação de com Diego não há razão de se colocar um ponto final.

A brincadeira não acaba nunca.

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